29.9.07

Como mamãe já dizia

minha mãe já me dizia:
confiança, só uma vez, minha filha.

28.9.07

Reunião

Todos falam
Não ouço nada
Minha cabeça
Anda tonta
Ninguém faz conta
De onde vou parar

27.9.07

Mentira

Errada sou eu
Que insisto
Em querer
Mais do que isso

E nisto
Eu não acredito

26.9.07

Apaixonados

Eles estavam apaixonados. Visivelmente apaixonados. Olhavam-se demoradamente, sem dizer qualquer palavra. Abraçavam-se e beijavam-se calma e infinitamente. Um misto de candura e desejo. Queriam a vida toda e queriam só aquele momento. Sobrava amor. Transbordava. Tanto que cada um que passava também ganhava um pouco, e se apaixonava. E sonhava. E lembrava. E o casal apaixonado, inocentemente, apaixonava o mundo.

23.9.07

Silêncio

Não faça barulho.
Pois qualquer ruído,
pode detonar tudo.

22.9.07

Bruta flor do querer

No fundo, não quero regras nem limite.
Quero cada um como cada um quer.
Não quero além.
Não quero mais que isso.
Quero querer assim, sem lei, sem fim.
Até onde as medidas se encaixarem.
Até quando as partes se gostarem.
E, juntas, forem inteiras.
Assim te quero, livre do medo.
___________________________________________
Em tempo:
“Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim”

Caetano Velozo

19.9.07

Qualquer coisa de triste

Olhando bem, ela tinha o olhar triste. Falava baixo, com timidez. Quase que evitava encontrar outros olhares, talvez por medo de ser descoberta, pois seu olhar não escondia. Talvez fosse impressão, pois ela tinha tudo para ser feliz: três filhas lindas, um marido bem sucedido, uma profissão de meio período que a possibilitava passar a tarde toda com as suas meninas. Que mais precisava? Mais nada.
Conversa vai, conversa vem.
Mais filhos? Não, não... antes até queria, pensava em quatro ou cinco, mas agora não... as meninas davam muito trabalho, estavam em uma idade difícil, desafiavam-na, ela já não tinha muita paciência para essas coisas. Gostava de bebezinhos. Ah, sim, adorava! Tinha toda paciência do mundo com eles, acordava à noite com prazer. Fazia tudo com gosto. Mas na idade em que as meninas estavam...
Conversa vai.
Profissão? Sim, era advogada, mas na verdade não advogava como gostaria. Fazia coisas pequenas, contratos simples, coisinhas banais. Dizia para si mesma que precisava tomar coragem, e enfrentar sua profissão. Mas como? E as meninas? Elas precisavam tanto de sua atenção, e seu marido já trabalhava tanto...
Conversa vem.
Seu marido? Ah, sim, também era advogado. Ele sim, trabalhava muito, cuidava de casos pertinentes, importantes e urgentes. Tanto que por vezes chegava em casa de madrugada, de tanto trabalho. Coitado. Não tinha tempo de ficar com as meninas, assim era ela quem fazia tudo com elas, buscava, levava, brincava, brigava, educava, tudo, tudo ela.
Conversa vai e vem.
Mas o cunhado era diferente. O cunhado? (Sim, o cunhado) Era pai há não muito tempo, e, na hora de seu almoço, levava o filho na escolinha, depois buscava e voltava para casa com ele, cuidava até a mãe chegar. Ele era diferente. Mas o marido dela não, nunca fez isso.
Conversa vai, tristeza vem.

18.9.07

Solidão

O medo da solidão
Sempre me fez só
E assim será
Até eu aprender
A me acompanhar

17.9.07

...

Levantar do fundo,
e aterrar o poço.

9.9.07

Mundo Santo

Nesse mundo manco
Ninguém quer saber
De olhar o outro

Nesse mundo manco
Quem vai entender
O olhar do santo?

Nesse mundo manco
Resta muito pouco
(Ou já não resta nada)

6.9.07

O Dragão e a Joaninha

Saiu correndo, com medo, gritando, querendo fugir o mais longe que podia dali. Tropeçou em uma pedra, caiu no chão, e seus óculos também caíram. Quando esticou os braços para pegar seus óculos, reparou que não eram os seus óculos. Eram outros, mas não os seus. Outros que estavam no lugar dos seus. Mas como? Não sabia. Olhou para trás, de onde fugira. Estranho. Não havia mais dragão, não havia mais nada. Olhando bem (franzindo os olhos para conseguir enxergar com precisão) tinha sim: uma joaninha. Que loucura! Era apenas uma joaninha... e ele pensou que fosse um dragão dos grandes. Mais do que depressa, se livrou daquelas lentes estranhas, que só fizeram atrapalhar a vida.

5.9.07

Os textos de minha mãe

Tudo tem um começo. O meu gosto por escrita também. Começou com a minha mãe, desde que eu era muito pequena.


Ela sempre me presenteava com livrinhos. Quando eu era bem pequena eram livros bem simples, com poucas frases e muitos desenhos. “A Nova Professora” foi um deles, contava a história de uma ratinha que aprendeu a gostar de sua nova professora tanto quanto gostava da antiga.

Depois, na medida que eu ia crescendo, os livros cresciam junto comigo. Um pouco mais recheado que o livro da nova professora foi o “Menino Maluquinho”, que eu adorei e me senti super importante lendo um livro “daquele” tamanho, parecia livro de gente grande.

Então começaram os livros de histórias maiores, com enredos mais elaborados, que eu adorava e lia com afinco. Destes lembro especialmente do “Marcelino Pão e Vinho”, que adorei, e chorei no final (acho que devia ter lá pelos meus 11 ou 12 anos). Até hoje lembro da capa, linda, e detalhes das cenas do livro que construí na minha cabeça enquanto lia.

Na adolescência gamei em poesia, pegava os livros antigos da minha mãe e lia, lia e lia. Cecília Meireles, Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes. Até que ela me presenteou, entre tantos outros, com o livro de “Sonetos”, do Vinícius. E eu, claro, gostei demais.

Mas esse texto é mais do que isso. Iniciei falando sobre os textos de minha mãe. É onde quero chegar, nos textos escritos por ela. A introdução acima é importante para entendermos o enredo: nos livros que ganhava de presente sempre havia uma dedicatória dela. Que eu adorava. Lia, relia e pensava: como minha mãe escreve bonito! Intimamente guardava um desejo de um dia escrever como ela.

Sabrina: vejamos com que seu nome rima. Podemos dizer com obra-prima, menina, estima e outras mais...Talvez, deixando a rima de lado vejo aquela nenêzinha que deveria chamar-se rosa porque nasceu dessa cor e, cor rima com amor, flor, ardor. Continuei na rima mas já mudei o rumo de minhas palavras para lhe dizer, menina, que você é minha obra-prima, minha caçula querida, razão da minha vida pela qual quero viver. Te amo muito. Sua mãe.”
(escrito por minha mãe, na dedicatória do livro Poetas Franceses do Século XIX, em 1995, no meu aniversário).
Mas seus escritos não paravam nas dedicatórias dos livros. Ela me escrevia muitas cartinhas e bilhetinhos. Nos aniversários, nas datas especiais, em dias comuns, muitos recadinhos no dia-a-dia.

Uma vez encontrei um caderno dela, cheio de poesias e prosas escritas por ela. Li tudo. Lindas. Chorei em muitas. E guardei o caderno comigo, bem guardadinho para poder ler a minha mãe sempre que quisesse.

E eu também, sabendo do gosto de minha mãe, virava e mexia, e vira e mexe, dava e dou livros a ela.

E assim seguimos, eu e ela, trocando livros e pequenos prazeres literários.
Obrigada mãe, por regar e cuidar, até hoje, da árvore literária que existe em mim (e que foi, certamente, plantada por você). Obrigada por seus textos de sempre, sentidos e delicados, como beijos de mãe.
Agradeço aqui na mesma moeda.