27.10.07

Colo de mãe

Que falta nossas mães nos fazem quando estamos tristes! Mais do que sempre, mais do que nunca. Tê-las por perto é um acalanto e tanto. Elas abrem a porta sorrindo, dizem que parecemos cansados, e preparam nosso bolo preferido. Falam amenidades para nos distrair. Sabem que não estamos bem, mas também não perguntam. Sabem que precisamos apenas voltar para o colo delas (ainda que por um breve instante). E consentem. Elas sabem de tudo... por isso, ao lado delas, podemos ficar mudos.

25.10.07

Blá, blá, blá.

Como vou dizer que não te amo? Eu amo. Quis amar você desde o primeiro instante. Sei que você acha isso tudo um blá blá blá de amor. Eu sei. Mas eu não vou mentir. Foi assim, eu sei, eu sempre quis. Como vou dizer que não te amo? Amo cada gesto teu. Cada riso solto e inesperado. Amo quando você, distante, encontra meu olhar. Amo seu jeito cauteloso de tratar as pessoas. Amo quando você insiste para eu falar. Amo você todo. Como poderia não amar? Controlo meus impulsos de beijá-lo e abraçá-lo a cada instante. E a cada instante eu me apaixono por você. De novo. E não canso. Às vezes até finjo que não ligo, só para não te cansar, com tanto amor, de tanto amar. Todo aquele blá, blá, blá. Mas como eu poderia não te amar? Perto de você eu fico manca. Pareço tonta. As frases não se completam e as palavras saem erradas. Perto de você tudo o que eu sei tão bem sabido me escapa. Perto de você eu só penso em ser amada, em ser gostada. Admirada. E assim me perco, para bem longe de casa. Perto de você eu me sinto pendente. Entende? Busco o que fazer no instante seguinte, tudo para que você fique. Como vou dizer que não te amo? Não posso, eu não minto, o que sinto, sinto.

24.10.07

Procura-se

A moça que estava aqui. E que sorria. A moça que confiava na vida. Perdoava, e logo esquecia.
Empatia.
A moça que era menina.
Maiores descrições, não precisa. A moça é reconhecida tão logo vista.
Procurem.
Quem encontrar e convencê-la a voltar (sim, pois certamente essa é a parte mais difícil) será devidamente recompensado (mas não é dinheiro não, que nesses assuntos dinheiro não vale um tostão).

Avião

O horizonte
Sobe e desce
Onde está Deus?
Estou em cima das nuvens e não consigo encontrá-lo
Deus?
Não te vejo
Mas sei que olhas por mim
E agradeço

21.10.07

O resto não

Dentro de um avião. Em cima das nuvens. Pés bem longe do chão. Tento me encontrar e tudo que penso é em descer daqui. Minha cama ainda quente e eu aqui passando frio. Como poderia não chorar? Tento me encontrar no meio dessa confusão. Ninguém imagina. Eu não sou daqui mas cumpro bem a sina. Reunião. Vinte milhões em ação. E vinte milhões de vezes eu queria estar bem longe daqui. Não quero mais isso não. Tento me encontrar e só encontro solidão. Mentira. Encontro paz quando penso em suas mãozinhas. Como poderia não chorar? Isso é amor, minha filha. O resto não.

19.10.07

(Des) ilusão

ilusão é céu
desilusão é chão

ilusão é mel
desilusão é grão

ilusão é cruel
desilusão é bom

Tapa na cara

Quando menos se espera. Tapa na cara. Sem dó e sonoro. Dói sustenido. Que saltos que a vida dá. Esse tapa repente me fez repensar. É preciso aprender até saturar. Ser a justificativa do que se quer explicar. Beijo a mão que deixou a minha face quente. Fervente. Fez minha alma subir. Entrar em ebulição e sumir. Mas eu vou voltar. Vou cair, vou aterrissar. Tempestade louca no quintal da sua casa. Vou gritar na sua cara. E molhar você inteiro, com o seu próprio suor. Depois, mais tarde, ofereço a outra face.

Verdade

sou eu
e é você
a Verdade
é o que eu posso
compreender

Mergulho

eu
surda
teu olhar
verde mar
a me aprofundar

18.10.07

Vigília

Meu barco vaga na escuridão da noite. Cansei de remar. Não tenho medo do escuro, mas sinto frio. Aguardo o amanhecer para poder enxergar. Por enquanto é rezar, pedir para que, ao menos, não ocorra uma tempestade em alto mar.

17.10.07

Proposta

Vinte e um anos de casados. Ele chamou a esposa. Senta aqui. Olha, estou apaixonado. Ela tem dezoito anos e eu quero viver isso. Você me espera? Ela: espero. Na praia, com meu surfista de vinte e a sua mesada. Quando você acabar, me liga, que eu volto. Renovada. Ele não aceitou, e não foi pela mesada. Essas meninas de dezoito não valem nada.

12.10.07

Quimera

Quisera eu sentir você com o mesmo gosto bom.
Quisera eu amar você sem a sombra da ilusão.
Quisera eu ficar só sem temer a solidão.

11.10.07

Dança das idéias

As idéias estavam se acertando, estavam girando em uma ciranda linda dentro da minha cabeça. Quatro passos para esquerda (bum, bum, bum, bum), quatro para a direita (ta, ta, ta, ta). Dois para esquerda (bum, bum), dois para a direita (ta, ta). Um direita (bum), um esquerda (ta). Mãos dadas. As idéias estavam indo muito bem. Circulando. Girando. Cantando. Saíam até algumas risadas boas. Que ciranda! Até que... pumba! Maria errou o passo. Ficou envergonhada. Não quis mais rodar. Medo de errar de novo. Soltou as mãos e desmanchou a roda.

10.10.07

Os avacalhados

Você ri dos outros. Você acha engraçado quando eles erram o passo. Você encontra graça na desgraça do povo. Você não vale nada. Quem vale são os outros. Escarnecidos. Achincalhados. Avacalhados. Eles sim, valem todos os meus centavos. Eles dançam sem olhar para os lados. Eles riem sem precisar de um otário. Eles se divertem um bocado. Eles sim. Eles não estão preocupados com a sua pose, com o seu colóquio, e com seu passo compassado. Seu ritmo é chato. Seu sapato é caro. E eles andam descalços. Você ri dos outros. Você que não vê. Você ri dos outros sem perceber que a pilhéria do mundo é você.

Escudo

Depois de tudo
Fica este escudo
E este medo
De receber
Outra bala no peito

9.10.07

A moça

Quer saber o que é que a moça tem? Não digo. Ela é mais do que isso. Quer saber o que é que a moça tem? Não tem, eu que imagino. A moça tem tudo o que eu acredito. E eu não acredito. A moça é perfeita. E eu, na sarjeta. A moça é bonita, e eu, feio na fita. A moça é santa, e não é daqui. Ela mora longe, bem lá em baixo. Lá mesmo, no inferno. Onde não faz inverno. É só quente. In(can)descente. Para falar a verdade, essa moça, ninguém nunca a viu. Mas quem já viu, bem de perto, desdiz, tudo que tenho dito.

8.10.07

Latim

Agora eu vou ficar calada
Cansei de levar paulada
Se quiser saber de mim
Vai ter de afinar o seu latim
Até me envolver
Até me comover
Até me convencer
A voltar a acreditar

6.10.07

Flor

não basta eu
não basta você
o amor não é assim
olha só:
não basta a terra
não basta a semente
precisa da chuva
entendeu?

5.10.07

Depois...fumaça

Depois que passa
Fica essa coisa estranha
Fica no ar, essa fumaça

Vala comum

Ordinários
Um casal banal
Um casal normal
Sem nada a acrescentar
Mais um casal
para não se invejar
Um casal como tantos
Um casal sem encanto

4.10.07

Delicadeza (como são tênues os limites do amor)

basta
um segundo
só uma palavra
e tudo que existia
por toda a vida
acaba

mamãmamá

Mamãe
Amar
Mamar
Amamentar
Mamar
Amando
Amamentando
Mamamamãe
Mamamamar
Mamãe
Mamã
Mamar
Mamá
Amor entrando
Amamentando
Amarmamar
Amamentar
Amar mamãe
A mãe amando
Amamentando

3.10.07

Balão

Mais uma separação
Mais um advogado
Mais cada um para um lado
Cada macaco no seu galho
E o macaquinho no chão
Sem pai, sem mãe, sem balão
(se tivesse um balão, pelo menos,
podia voar para longe dali)

Tormento

Não vai ter fim
Vai consumir
Vai enlouquecer

Não tem remédio
Vai machucar
Vai causar febre

Não tem saída
Vai andar tonta
Vai se perder

Não tem solução
Vai tentar em vão
Até explodir o coração

2.10.07

Não sei

Não sei.
Sem acreditar eu não sei fazer.
Sem imaginar eu não sei brincar.
Sem me entregar eu não sei amar.
Não, não sei.
Sem imaginar eu não sei fazer.
Sem me entregar eu não sei brincar.
Sem acreditar eu não sei amar.
Não, não, não sei.
Sem me entregar eu não sei fazer.
Sem acreditar eu não sei brincar.
Sem imaginar eu não sei amar.
E assim vou.
Pois sem mergulhar eu não sei nadar.