19.9.07

Qualquer coisa de triste

Olhando bem, ela tinha o olhar triste. Falava baixo, com timidez. Quase que evitava encontrar outros olhares, talvez por medo de ser descoberta, pois seu olhar não escondia. Talvez fosse impressão, pois ela tinha tudo para ser feliz: três filhas lindas, um marido bem sucedido, uma profissão de meio período que a possibilitava passar a tarde toda com as suas meninas. Que mais precisava? Mais nada.
Conversa vai, conversa vem.
Mais filhos? Não, não... antes até queria, pensava em quatro ou cinco, mas agora não... as meninas davam muito trabalho, estavam em uma idade difícil, desafiavam-na, ela já não tinha muita paciência para essas coisas. Gostava de bebezinhos. Ah, sim, adorava! Tinha toda paciência do mundo com eles, acordava à noite com prazer. Fazia tudo com gosto. Mas na idade em que as meninas estavam...
Conversa vai.
Profissão? Sim, era advogada, mas na verdade não advogava como gostaria. Fazia coisas pequenas, contratos simples, coisinhas banais. Dizia para si mesma que precisava tomar coragem, e enfrentar sua profissão. Mas como? E as meninas? Elas precisavam tanto de sua atenção, e seu marido já trabalhava tanto...
Conversa vem.
Seu marido? Ah, sim, também era advogado. Ele sim, trabalhava muito, cuidava de casos pertinentes, importantes e urgentes. Tanto que por vezes chegava em casa de madrugada, de tanto trabalho. Coitado. Não tinha tempo de ficar com as meninas, assim era ela quem fazia tudo com elas, buscava, levava, brincava, brigava, educava, tudo, tudo ela.
Conversa vai e vem.
Mas o cunhado era diferente. O cunhado? (Sim, o cunhado) Era pai há não muito tempo, e, na hora de seu almoço, levava o filho na escolinha, depois buscava e voltava para casa com ele, cuidava até a mãe chegar. Ele era diferente. Mas o marido dela não, nunca fez isso.
Conversa vai, tristeza vem.

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