16.12.08

poema de duas meninas na janela

quando você adormece
a lua alumia o seu rosto

velando o seu sono

dois brancos
redondos

um
longe

um
perto

duas faces
claras

você e ela

quem vai dizer
que não valeu a pena?

imagem: Irisz Agocs



10.12.08

(re) volta



estive fora uns dias
mas a poesia
sempre esteve dentro

(inda mais linda
do que quando dita)


imagem: Patrícia Metola

2.10.08

dentro em breve






















inda há tanto para mudar.
dentro de mim, sinto tanto.
sinto um mundo querendo sair.
sinto tudo quase explodir.
sinto vontade de ficar muda.
sinto meus pés descalçando os sapatos.
e pisando na terra.
nua.


(imagem: Patricia Metola )

29.9.08

muda(nça)


o
silêncio
compensa
os gritos retidos no tempo

o
silêncio
é a palavra
dos que precisam
dizer nada

o
silêncio
é a recompensa
da alma lavada

5.9.08

...

quero um retiro sem tempo previsto.
quero voar bem alto e ver lá de cima tudo pequeno.
quero sentar no colo de Deus, exausta, e adormecer.
(como uma criança, que entrega todo seu cansaço aos braços de sua mãe).

4.9.08

tarde na fazenda


tem jabuticaba
tem jabuticabeira

tem criança corada
tem criança correndo

tem bicho solto
e tem bicho dentro

tem barulho de vento

tem abacate
tem abacateiro

tem varal no quintal
tem cheiro bom na cozinha

tem menina
tem flor colorida

tem ciranda cirandinha

tem cachorro
tem gato e galinha

tem amora
tem amoreira

tem chá
de erva cidreira

tem vida
todos os dias
para a vida inteira


(imagem: Patricia Metola)

14.8.08

de volta

já fui devota
de krishna

hoje padeço
tentando aprender
o que tão bem
eu sabia:

a vida é etérea
a morte é matéria

já fui devota
de krishna

hoje anseio
livrar-me do medo
cortar os cabelos
e vestir um sari
(imagem: krishna.com)

4.8.08

ponto de encontro

costurar
ponto por ponto
os caminhos da minha vida

combinar
as cores

juntar
os panos

e fazer uma poesia


(imagem daqui)

1.8.08

Abraço

(clique na imagem para ampliar)
Bom final de semana!


Quadrinho: Liniers (para variar)

24.7.08

Jardineiro fiel

você abre as minhas janelas
cuidadosamente
uma por uma
uma por dia

sempre
na hora do sol entrar

e eu
então aquecida
sinto brotar em mim
flores lindas
.
.
.
sim
as sementes
já estavam aqui
mas, quiçá, fadadas
a um crescimento
franzino

(imagem: Patricia Metola )

_________________________________________________________

* para você, moço lindo, amor meu.

21.7.08

Mamíferas


Na semana passada, recebi um convite delicioso: fazer um texto para o blog Mamíferas!

Para quem ainda não conhece, o blog é formado por três mães inspiradíssimas, e apaixonadas por seus filhotes, que se revezam na publicação de textos diários (ou quase) sobre a maternidade e tudo mais que isso traz (sim, e é muito!).

Aos domingos acontece a publicação de um texto escrito por uma mamífera convidada... e ontem a convidada era eu! Escrevi sobre o processo de dizer adeus às fraldas, momento que estamos passando em casa com a nossa pequena ("
Agora ela usa calcinha!").

Adorei fazer o texto e adorei o convite (muito agradecida, viu meninas!).

Passem por lá e deixem seus palpites! As meninas vão adorar e eu também.

15.7.08

serena


plantei margaridas
e rezei para chover

aguardo, tranqüila
o sopro do criador

tudo acontece no amor
seja lá como flor


imagem: Mariah

10.7.08

eu e Raul ... Raul e eu

Ueba! Vamos lá! Recebi da querida Renata, do Bicho Solto.
A regra da brincadeira é a seguinte: responder as perguntas abaixo citando nomes de música de um mesmo artista, ou de uma mesma banda. Eu escolhi o Raul, que me acompanha desde que eu era criança (saindo do rádio das minhas irmãs), e sempre me diz coisas importantes sobre a vida. Ficou assim ó:

1. descreva-se: “Quero ser o homem que sou”
2. o que as pessoas acham de você?: “Que todo mundo explica”
3. descreva o seu último relacionamento: “Ouro de Tolo”
4. descreva a atual relação: “Coisas do coração”
5. onde queria estar agora:
“Sociedade Alternativa”
6. o que você pensa sobre o amor:
“Prelúdio”
7. como é sua vida:
“O conto do sábio chinês”
8. se tivesse direito a apenas um desejo:
“A Lei”
9. uma frase sábia:
“Você”
10. uma frase para os próximos: “Tá na hora”

Para continuar a brincadeira se quiserem*: Delicada & Arredia, Verso (in)constante, Fabíola, Brincando com Palavras e Dois Rios.
*Eu costumava ficar incomodada quando pensava em repassar as indicações e brincadeiras que correm pelos blogs. Sei lá, talvez por medo de incomodar (insegurança?), ou por outra coisa que eu não sei bem explicar. Então reparei que a Renata encontrou uma maneira simples e delicada de fazer isso, dizendo assim: "para continuar a brincadeira se quiserem..." . Fez tanto sentido para mim que resolvi fazer minhas as palavras dela (posso, Tata?).

9.7.08

ser tão

a chuva de ontem
não trouxe alívio

o solo
segue seco

só mesmo
uma enchente
de sentimentos
para eu voltar a florir

3.7.08

zen você

eu vejo flores
em nosso
jardim

e você
descobrindo
o princípio
do fim

dessa dor
ou seja lá
o que for

e quero mais
se possível
ir além

quero descobrir
que com você
eu também
sei ser

feliz

(amém)

2.7.08

matiz

regras claras
preto no branco
pingos
nos
is

s
i
m

hoje
deixo o carmim
e finjo ser
gris

1.7.08

Hoje...



(clique na imagem para ampliar)

Quadrinho: Liniers (para variar)

27.6.08

querença

todo mundo quer ser feliz
sentir o coração pulsar
explodir

todo mundo quer paixão
pernas bambas
comoção

todo mundo quer querer
sem pensar
em doar
(-se)

24.6.08

revoar


nos sonhos
não há regras nem sentido

nos sonhos
vôo leve e cristalino

nos sonhos
saímos para vida etérea

sim
nos sonhos
estamos livres
do peso da matéria

(que alívio)
_________________________________________
* do Aurélio:
"Revoar: voar para o ponto de onde partira"

19.6.08

a(i)nda

ainda existe um muro
que nos impede
de entender
o outro

ainda existe um véu
cobrindo o
sentido
amor

ainda existe um campo
a transpor

(vamos?)

16.6.08

rosa dos ventos


vejo-me
vejo-te

cada um
com seu remo

e nós:
dois braços
de um mesmo barco
______________________________________________
* Para você, moço meu, que é meu Sul desde menino...

15.6.08

Mais um presente!

Recebi mais um presente da querida Fabíola:


Fá, muito obrigada, fiquei muito feliz pela indicação!
(e saiba que a satisfação de estar por aqui é toda minha)
:)

13.6.08

Mirando

A semana foi corrida demais, mas acabou! Ufa!
Um ótimo final de semana!
Quadrinho: Liniers

6.6.08

filha

guardo-te
dentro do meu peito
dentro da minha vida
dentro de tudo que penso
e aguardo, descrente
o dia em que as palavras
nos alcançarão

imagem: Ana Oliveira

Grande amor

Suas mãos são grandes e fortes. E estavam sempre segurando as minhas. Quando criança, ele me carregava sobre seus ombros, lembro da sensação de segurar em sua testa e passar a mão por seus cabelos grisalhos. Saíamos juntos para todos os lados. Ele me explicava tudo atentamente e com detalhes. Ele desembaraçava meus cabelos compridos com seu pente fininho. Ele cortava meus cabelos em cima da máquina de lavar, e quando acabava dizia para eu ir ao espelho ver se tinha gostado. Ele me ensinou a andar de bicicleta e me ensinou a dirigir. Regávamos as plantas juntos, e eu podia segurar a garrafa pesada junto com ele. Ele não matava os insetos que apareciam em casa, mas os levava ao jardim, e eu achava incrível ele segurar uma barata, nas mãos juntas e fechadas em concha, com a maior naturalidade. Ele não me deixava brincar sozinha com garotos. Ele consertava todos os meus brinquedos. Ele me ajudava com as matérias que eu não entendia, e sempre sabia resolver os exercícios difíceis. Quando chegava o boletim, ele sentava comigo na mesa da sala e via todas as notas, uma por uma, comparava com a média anterior, comemorava os aumentos, brincava com as que haviam baixado um pouco, e conversava sobre as que haviam baixado muito. Ele me trazia pastas de capa dura, repletas de plásticos já com folhas de sulfite dentro, perfeitas para minha coleção de papéis-de-carta. Ele me levava e buscava em todos os lugares, sempre com um sorriso no rosto. E ele nunca atrasou. Nunca. Ele sempre devolvia o troco quando havia recebido mais do que o devido. Quando fui para o meu primeiro acampamento escolar, já no colegial, ele me abraçou e disse para eu não deixar ninguém pensar que eu não era uma “menina corretinha”. Na época do cursinho, ele acordava antes de mim e preparava dois lanches naturais para eu comer nos intervalos das aulas. Quando entrei na faculdade ele conversou seriamente comigo sobre o ambiente, sobre drogas, e sobre rapazes aproveitadores, disse para eu não aceitar caronas e recusar flores (eu nunca recebi flores na faculdade). Ele passava no meu quarto todas as noites para arrumar as minhas cobertas e me dar um beijo. Por muitas vezes conversamos até de madrugada, na mesa da cozinha, beliscando os restinhos da janta. Quando eu disse que ia sair de casa, ele me abraçou por tanto tempo que até adormeceu nos meus braços. Quando minha filha nasceu, ele me beijou e abraçou sinceramente feliz, e trouxe uma salada de frutas feita por ele. Ele me dá flores em todas as ocasiões especiais. Ele me chama por um apelido derivado de flor. Ele demonstra tanta confiança em mim que eu chego a duvidar das minhas próprias inseguranças.
Ele é o melhor pai do mundo. É o meu.

4.6.08

bonança

sem essa
de ter pressa

hoje
não corro mais

hoje
sou ex-pressa
imagem: Ana Oliveira

29.5.08

a maré

não me peça para explicar
o que eu não posso ser
aceite-me
(ou não)
e lembre-se:
eu não sou chão
eu sou água
(de mar)
por isso
posso mudar
mas naturalmente
(lunar)
se você tentar controlar
eu vou escapar
(feito água)
por entre
seus medos
desenho: Tresa Sousa

27.5.08

(en) volver

pára tudo
e me olha
um instante antes
de ir embora
fica mais
demora
e olha:
nosso tempo
é agora
esse amor
aquela prosa
nossa flor
inda cheirosa
esquece essa
de ir embora
demora
e olha...

16.5.08

encontro

será que existe
uma única criatura
capaz de entender
tudo o que eu
silenciosamente
grito?

tudo o que eu
com tantas palavras
omito?

capaz de me dizer
que já penou da mesma chaga
e se depois restou curada?

alguma criatura
ainda que muda
capaz de me lançar
um olhar de reconhecimento?

um olhar que leve essa tormenta
e traga, em seu lugar, brisa fresca?
aguardo em silêncio

sabendo, no fundo,
que a criatura que busco
me encontra
todos os dias

no espelho

13.5.08

Regra de ser

Afinal de contas...
a intensidade da dor
é diretamente proporcional
à necessidade de libertação.

Mas atenção:
de baixo para cima
este poema não se aplica.

12.5.08

enxaqueca

tudo o que eu deixei de ser
explode dentro da minha cabeça

até o dia em que eu aprender
a explodir antes

que eu me esqueça

6.5.08

seis de maio

ao seu lado
não há tempo
a ser contado

ao seu lado
o estado é de graça
e o tempo, parado

ao seu lado
é sempre tempo
de amar sendo amado

para que calendário?

(na) morada

(imagem: Liniers)


hoje escrevo para festejar

o amor
sem tempo

e o tempo
sem hora

hoje escrevo para celebrar

o amor
que há tempos

em nós
mora

30.4.08

Traumas que vêm para o bem

Ainda criança, a menina foi ao hospital visitar uma conhecida da família que havia tido um bebê. O bebê havia nascido por cesariana.
Chegando lá, curiosa que era, a menina foi logo perguntando por onde o bebê havia saído, já que não estava mais dentro da barriga daquela moça.
As mulheres que estavam no quarto explicaram que o bebê havia saído pela barriga da mãe mesmo.
A menina não entendeu. Pela barriga? Como? Pelo buraquinho do umbigo?
Então as mulheres explicaram que os médicos haviam feito um corte na barriga da moça, e o bebê havia sido tirado por ali. E que depois costuraram o corte com agulha e linha especial, parecido com o que se faz com as roupas rasgadas.
Os olhos da menina encheram de lágrimas.
As mulheres perguntaram o que havia acontecido.
A menina respondeu que não queria que cortassem sua barriga quando seus filhos nascessem.
E chorou.
Todos acharam graça. Menos ela.
Quando voltou para casa, reformulou toda a relação de parentesco que mantinha com suas bonecas. Não tinha mais nenhuma boneca-filha. Depois da visita ao hospital, passou a ter apenas boneca-sobrinha, boneca- prima e boneca-amiga.

A menina cresceu.
E se quiserem saber o que aconteceu com ela vejam aqui.

28.4.08

Blog de 7 Cabeças

Semana passada foi semana de convidados no Blog de 7 Cabeças.
E é com muita satisfação que aviso aos amigos daqui que o Suspiro apareceu por lá como convidado da querida Mary (Versos deLírios), na sexta-feira.
O Blog de 7 Cabeças é bom demais da conta! Escrito por sete “cabeças” que se revezam em publicações poéticas diárias, cada um com seu dia da semana reservado. A mistura de estilos é o tempero especial do blog. Para quem gosta de poesia, é um prato mais do que cheio.
Alimentem-se!

24.4.08

cirandar

quando você sorri
tudo o que é não
diz sim
quando você sorri
tudo pode acabar
assim

quando você sorri
o mundo gira
gira
gira
gira
em uma ciranda linda
______________________
* para você, amor meu.

22.4.08

Festa no céu


Ele comprou um monte de balões coloridos. Cheios com gás hélio (daqueles que sobem a perder de vista).
Diziam que era louco. Mas era padre.
Juntou todos os balões em uma corda só, e segurou firme. Até que os balões levantaram seus pés do chão. E ele foi, feliz da vida. Subiu aos céus com seus mil balões coloridos.
Subiu, subiu, subiu. Tanto que sumiu. Ninguém mais o viu.
Suspeitam alguns que ele caiu no mar.
Mas não: ele subiu bem alto, passou os barulhos e passou as nuvens. Chegou em uma plataforma celeste. Segurando os balões, caminhou até chegar em um grande portão. Bateu palmas e aguardou. Não demorou quase nada, e Deus se aproximou:
- Padre, como demoraste! Entre depressa, vamos espalhar os balões pelo salão antes que os convidados cheguem...
Que festa!


(imagem: www.uol.com.br )

18.4.08

despe(r)dida

esqueço o sentido da graça
e minha vida passa

trabalho para sua carcaça
e minha vida passa

olho a verdade de máscara
e minha vida passa

deixo o amor em casa
e minha vida passa ...


... dá-me a passagem
vou-me embora

dei-me conta
em boa hora

minha estação
é outrora.

16.4.08

aMar

se eu te abraçar
vamos os dois
afogar

meu amor
não é morte

e cada corte
o sal curou

eu sou:
duas mãos estendidas

aguardando você
emergir para a vida

8.4.08

Iluminados

(Para a querida Fabíola, com muito carinho)


iluminado é Leminski
tão complexo quanto simples

iluminado é Rubem Alves
escritor, educador e salve!

iluminada é Clarice
profunda... feliz ou triste?

iluminado é Quintana
delicadeza que encanta

iluminado é Fernando
sempre um, sempre tantos

iluminado é Manuel
infância pintada no papel

iluminada é Cecília
por vezes cortada, mas sempre cheia de vida

iluminado é Carlos
cem razões para amá-lo

iluminados são tantos...
e cada um
em cada canto.
______________________________________


Recebi o selo acima da querida Fabíola,
e agradeço com muita alegria.
Quando li, pensei em tudo que é
iluminado no mundo. E são tantas coisas!
Então decidi restringir o tema à literatura,
e saiu o poeminha mais acima,
que dedico à Fabíola, com muito carinho.

7.4.08

semeia flor

sou seu jardim

o toque de suas mãos
jas mim

4.4.08

mais valia

não vale
encontro com olhar solto

não vale
silêncio sem paz no peito

não vale
conversa em linha reta

não vale
abraço se o calor é escasso

não vale
mergulho profundo
quando o amor é raso
imagem: Heliz

1.4.08

Televisão... por Liniers.

(clique na imagem para ampliar)

Mais quadrinhos (lindos) do LINIERS: http://www.porliniers.com/

28.3.08

canto de amor

desejo profundo
que sejas feliz

antes de mim
antes de nós

ainda que
eu só

feliz

27.3.08

menina


amor que guardo
dentro do peito
(perfeito)

amor que caminha
mão segurando a minha
(pequena)

amor que alimenta
todas as minhas crenças
(bendito)

amor que clareia
toda minha esteira
(estrelas)

amor que invade
todos os meus sentidos
(pureza)

amor que levo
pela vida inteira
(poema)

19.3.08

MUDAnças


.calemos
deixemos que o silêncio
mostre o caminho...

... e o sentido
que as palavras
jamais poderiam.

imagem: Ricardo Loureiro

17.3.08

alento


eu não sei amar de menos

para amanhã
aceito um amor sereno

mas para hoje
eu quero amor demais




imagem: Francisco Miguel Santos

universo

palavras unidas
no mesmo verso

14.3.08

eu, ela e o nosso futuro


Eu não sou nada disso. Aqui é tão gelado. Meus lábios ficam roxos de insatisfação. Nenhum calorzinho de emoção tem espaço. Frio condicionado. Eu não quero chegar onde eles estão. Meu sentido é contrário. Eu gosto de sentir o gosto que as coisas têm. Gosto de calma. Gosto de casa. Não gosto de plantas artificiais. Gosto de sentar na grama molhada. Gosto de andar com os pés descalços. Não gosto de janelas fechadas. Gosto do azul a perder de vista. Gosto do calor aquecendo os sentidos. Não gosto de frases pensadas. Gosto de risadas largas. Gosto das palavras lidas nos olhos. Não gosto de agendas lotadas. Gosto das surpresas que o mundo guarda. Gosto de vidas desgovernadas. Definitivamente, eu não gosto daqui. Tudo é sempre igual. Tudo girando em torno do mesmo propósito vil. A única planta realmente viva mora na minha sala. Eu e ela, bravas guerreiras. Ela sim, sorri todos os dias. Olho para ela e reforço a minha promessa: muito em breve, eu e ela, de mãos dadas, estaremos bem longe daqui.

imagem: Susana Camões
(
http://olhares.aeiou.pt/)

13.3.08

todas nos seus (a)braços


abraço minha filha com todo amor que sinto

queria abraçar todas aquelas crianças
poder cuidar de cada uma delas
exatamente como cuido da minha filha

mesmo sabendo que isso não vai saciar suas fomes
nem curar suas feridas
rezo
estendo a elas todo o meu amor
todos os dias
em todos os abraços que dou em minha filha

imagem: Jose Alves Filho
(criança vendendo peixe em Terezina-PI)

7.3.08

mulher de tantas vidas

Ela estava com uma barriga imensa. Carregava atrás de si um carrinho de madeira com restos de material reciclável. Tudo era conseguido nas ruas, nos lixos, nas casas que a ajudavam. Suas mãos estavam sujas. Sua camiseta era pequena demais para a barriga que se mostrava quase toda para fora. Seus cabelos encaracolados estavam meio presos e meio soltos, caindo sobre os olhos. Sua pele, bronzeada, não escondia suas cicatrizes. Seu rosto expressava sobrevivência. Seus pés, a dureza da vida. O Sol não dava trégua. Mas ela também não desistia. Andava. Procurando qualquer objeto que pudesse ser útil. Parou um instante para descansar. Então eu vi mais do que já tinha visto. Dentro de seu carrinho, no meio de tantos papéis e embalagens sujas, estava uma menina. Nem dois anos tinha ainda. Cabelos encaracolados como os da mãe. Roupas que não eram suas, grandes e gastas. Pele bronzeada dos tantos passeios. Ela brincava com os objetos dentro do carrinho. Distraidamente. Na parada, olhou para a mãe e sorriu. A mãe não retribuiu o sorriso. Secou o suor da testa com os braços, respirou fundo e novamente tomou seu carinho nas mãos. Sumiu dos meus olhos. Seguiu a sua vida. Carregando sua menina. Carregando sua barriga.

6.3.08

os olhos da vovó

no dia do seu aniversário
programei uma festa
balões coloridos
bolo e docinhos
quando você entrou na sala
seus olhos sorriram
e a festa foi completa
depois, mais tarde,
olhando-me fundo
com seus olhos de menina
(que hoje moram no rosto da minha filha)
você me confessou
que nunca antes
havia recebido balões
em sua homenagem
e esse foi o presente
que você me deu
no dia do seu aniversário


4.3.08

Eu e o texto de Rubem Alves

Às vezes sou ética de princípios. Outras, contextual. Menos esta, mais aquela, confesso. Mas tenho descoberto que o princípio pelo princípio me endurece, enquanto o princípio contextualizado me liberta. Claro que essa não é a regra. Às vezes é ao contrário. Como tudo que é sentido na vida. Transformo-me. Aos poucos. Princípios, trago tantos. Mas não sei ainda se me servem ou se sou eu quem serve a eles. Vezes eu, vezes eles. Sei que encho a boca para cobrar os mesmos tantos dos que me acompanham. Estes que tentam acertar apesar dos tropeços. Revendo, diariamente, seus contextos. Na verdade que é só minha, penso na idéia de princípios contextualizados. Pois não creio na ausência total de princípios, tampouco na atitude puramente contextualizada, sem um pensamento curtido por trás. Nem isso, nem aquilo. Acredito, hoje sinto, na ética dos princípios contextualizados. Mas entendo que nem sempre é possível. No fundo, luto pela ética de aceitar o ser. Sendo, sinceramente, tudo o que pode crer.

Ética de Princípios - RUBEM ALVES

Duas éticas -a de princípios e a contextual.
A única pergunta a se fazer é:
"Qual delas está mais a serviço do amor?"
AS DUAS ÉTICAS: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos -a que os filósofos dão o nome de ética contextual.Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe...Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo.O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: "Doutor, será que eu escapo desta?"Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer?Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: "Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer..." Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano -"A senhora breve estará curada...'-, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" E ele dirá:"Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer..." Aí, então, os dois conversarão longamente -como se estivessem de mãos dadas ...- sobre a morte que os dois haverão de enfrentar. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade.Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem.Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"
Texto de Rubem Alves

Publicado na Folha, em 04/03/08
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0403200804.htm)

28.2.08

morte e vida

Morte. Qualquer coisa linda havia morrido dentro dela. Era preciso aceitar. Era preciso erguer a cabeça e continuar. Ainda com o peito sangrando um pouco a cada dia, um tanto a cada lembrança. Era preciso continuar mesmo com a falta de encanto. Viver sem a certeza da pureza. Mas como? Tão doído isso. Ela só sabia amar assim. Inteira. Acreditava em toda aquela beleza. Admirava. E agradecia. Todos os dias. Queria aquele amor imaculado. Queria. Mas não podia controlar tudo. Só a si mesma. E, dentro de si, sabia. Precisava estar livre. Livre de tudo que não lhe pertencia. Precisava deixar aquele amor morrer. Cada flor e cada dor. Cada pedaço daquele amor. Tudo. Só assim, morrendo, poderia nascer de novo. Mesmo amor, amor novo. Semente. Broto. Regados com encanto. Espera e esperança. Até que o tronco esteja forte. E a ternura, então, volte. Até que as flores sejam muitas. E o silêncio repleto de sentido. Até que os frutos estejam maduros. E tudo volte a ter gosto. Vida.

27.2.08

Revelação

Todo amor morava dentro dela. Sempre.
Todo amor morava dentro dela. Simplesmente.

Em uma fração de segundo, ela abraçou o mundo.
E seu coração alcançou a liberdade.

Liberdade dos que não precisam de nada.
E, felizes da vida, amam.

Solitariamente.

25.2.08

Transitoriedade

Do livro "Poesia Numa Hora Dessas?!";
Luis Fernando Veríssimo;
Editora Objetiva.

silêncio

o silêncio me olha
com essa cara vazia
cheio de melancolia

o silêncio é mais forte
do que o meu grito
falado ou escrito

o silêncio só morre
quando bradado
por duas vozes

23.2.08

cartinha

filha,
você nem imagina
mas quem me alimenta
deleite
de vida
é você.

22.2.08

liberdade

ela era peixe
mas tinha asas
e nadava no ar

ele era pássaro
mas tinha cauda
e voava no mar

às vezes, olhavam-se:
tempestade em alto mar

de tanto amor
de tanto amar

21.2.08

vida

para vencer o medo
para mergulhar fundo
para enlaçar os dedos
para entregar tudo
para viver em paz
em paz
paz

é preciso
coragem

18.2.08

minha filha

amor
que enche meu peito
e transborda
todo santo dia

15.2.08

Filme triste

Mesmo dentro da hora ela já acorda atrasada. Prepara o café, arruma a mesa, sacode as crianças. Olha atravessada para o marido. Será possível que ele nunca vai ajudar em nada? Corre. Leva o cachorro para a rua. Volta. Come. Dispara orientações para empregada. Será possível que ela nunca vai entender nada? Uma porta. Sai de casa. Correndo. Chega no trabalho. Senta. Já desanimada. Começa. Cadê os papéis do banco? Depressa. Mas será possível que todo mundo vai sempre fazer tudo errado? Almoço. Essa vida, quer dizer, essa comida continua sem gosto. Reunião. Corre. Fim do dia. Ai que dor nas costas. Trânsito. Trânsito. Trânsito. Chega em casa. Prepara. Arruma. Sacode. Cachorro. Marido. Crianças. Filme em preto e branco.

14.2.08

explosão da vida

Ela estava com uma barriga imensa. Grávida. Caminhava no parque. Calmamente. Olhando o mundo. Olhando as gentes. Andou. Depois sentou. De frente para o lago. O Sol lhe batia na face. Ela olhava as árvores com os olhos entreabertos. Via raios brancos, desenhados pelo Sol, em toda a paisagem. Era como uma fotografia. Uma fotografia que se movia. Pessoas por entre os raios brancos. Que iam e vinham. Só os raios permaneciam. A moça também. Ficou ali um bom tempo. Ora fechava os olhos e sentia o calor aquecer seu rosto. Aquecer sua barriga, que se movia. Ela estava parada, mas não a sua filha. Ora abria uma frestinha de um dos olhos e via tudo o que via. Via pessoas passando e olhando sua barriga. Via cachorros correndo com as crianças de guia. Via. No meio de tantos, viu um senhor. Caminhando na trilha de terra, pelo meio das árvores. Ia virar a esquina. Mas parou. E tomou o caminho que terminava nela. E assim vinha. Olhando para ela. Ela estava com os olhos entreabertos. E perguntava-se se o senhor percebia. Ou se achava que ela nada via. O senhor chegou perto dela. E parou. Na frente dela. E da barriga grande dela. Rosto sereno. Enrrugado de tanta vida. A moça abriu os olhos. Olhou o senhor, que olhava para ela. Ele pediu licença para falar. Ela concedeu. O Sol brilhava entre os dois. Ele disse que o anjo da vida estava ali, bem ao lado dela. Guardando e aguardando. Protegendo e acompanhando. Ela sorriu. Ele prosseguiu. Disse que tudo daria certo. E que a felicidade seria sua fiel companheira de vida. Ela sorriu mais ainda. E disse amém. Os olhos do senhor sorriram para ela. E para toda aquela barriga. Ele voltou para aquela esquina, antes preterida. No dia seguinte a moça pariu sua menina. Exatamente como queria. E estava feliz da vida. E agradecida. Tanto que não cabia. Vida.

13.2.08

Nos braços de Deus

Eram dois bebezinhos. Duas meninas. Uma ficou na terra e a outra voltou para o céu. E a mãe, sessenta anos depois, conta sua história com ternura. E lágrimas. A mãe lembra de sua filha querendo acreditar que fez tudo o que podia. Sozinha, com duas crianças. Fez tudo. Tudo o que podia, tudo o que sabia, tudo o que conseguia. Deus sabe que sim. Mas ela não. Sofre. Lamento de mãe dói fundo no peito, e não há tempo que dê jeito. Mas Deus sabe e, com todo carinho, segura sua menina. E aguarda (sabido que é das coisas da vida). A mãe terá sua menina nos braços de novo, a receberá dos braços Dele. E, com o peito doído de saudade, mas invadido de felicidade, vai acalentar sua menina com todo o amor que ficou guardado esses anos todos. Sim, Deus sabe.

Quer saber?

Você não sabe do que está falando. Você acha que tudo é fácil. Você acha que tudo pode. Não, não pode. Não, nem sempre dá. Você caiu de pára-quedas e não conhece esse chão. Vou repetir: você c-a-i-u. Portanto, quer um conselho intrometido? Melhor levantar devagarzinho, e ter a humildade de ouvir as pessoas que não querem passar a perna em você. Outras opções? Sim: você pode continuar de mãos dadas com esse bando de baba-ovos, que dizem sim para tudo que você pensa, e choram sentidos e fingidos, até fazerem você acreditar, e arrancarem o seu último tostão. Eles têm pose. Falam bonito. Prometem castelos. E você bate palmas. Quer saber? Eu não quero mais saber. Não vou lutar por você. Estou cansada de ser desacreditada. Tenho tanto a fazer por mim, que já estou atrasada.

ilusões


depois da morte
de cada uma delas
eu poderei
nascer

OGM


Ontem, em Brasília, o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) autorizou o plantio e a comercialização no país de duas variedades de milho trangênico: o milho da Bayer (Liberty Link) e o milho da Monsanto (MON810).

O CNBS é um órgão de assessoramento superior do Presidente da República, constituído de 11 Ministros de Estado, com o objetivo de formular e implementar a Política Nacional de Biossegurança. Uma das atribuições do CNBS é decidir, em última e definitiva instância, sobre os processos relativos a atividades que envolvam o uso comercial de organismos geneticamente modificados (OGM) e seus derivados.

Dos onze ministros que integram o CNBS, sete foram a favor da aprovação da medida.

Pessoalmente, sou contra OGM.

Homem mexendo no cerne das espécies, alterando genes, rompendo a barreira do cruzamento natural, transferindo material genético entre vegetais, animais, bactérias, vírus e humanos. Não consigo ficar à vontade com a idéia. Nem por um instante.

Saúde e meio ambiente:

Estudos sérios e comprometidos com a causa comprovam a contaminação genética provocada por lavouras de milho transgênico. Também existem evidências científicas sobre o risco à saúde e ao meio ambiente, e relatórios de governos europeus justificando o motivo da proibição dessas variedades nos respectivos países (todos estes documentos estão disponíveis no site do Greenpeace).

As variedades autorizadas no Brasil foram proibidas em inúmeros países. O milho da Monsanto (MON810), por exemplo, está proibido na Alemanha, Áustria, França (maior país agrícola da Europa), Grécia, Hungria, Polônia e Suíça. No Reino Unido, a própria Bayer retirou seu pedido de liberação comercial, já que não podia garantir a segurança do milho Liberty Link.

Questão social:
Por trás do cultivo de OGM se escondem interesses poderosos de grandes empresas que pretendem controlar toda a cadeia alimentar, desde a produção até o consumo. Isso significa a total dependência dos pequenos produtores rurais dos interesses destas empresas.

Um dos argumentos de quem defende a manipulação genética é a possibilidade de aumento da produção de alimentos, para combater a fome no mundo. Empresas capitalistas, multinacionais, preocupadas com a fome no mundo. Sim, claro. Há muito já se sabe que o problema da fome no mundo não é quantitativo, mas sim político (problemas de distribuição de alimentos).

Por fim, para quem quer ficar longe dos transgênicos e, de quebra, boicotar toda essa politicagem, no site do Greenpeace tem um guia de produtos que contêm alimentos geneticamente modificados. Vale a pena conferir, a lista é atualizada periodicamente.
imagem: Arthur Franco

11.2.08

Meu primeiro amor


Aprendi com você muitas coisas, e muitas, e tantas, que contá-las todas seria impossível.
Aprendi a ser honesta, especialmente comigo.
Aprendi a ter bom humor, comigo e com os outros.
Aprendi a seguir os meus princípios, ainda que solitariamente.
Aprendi a dizer a verdade, apesar das conseqüências.
Aprendi a receber as pessoas com carinho e boa vontade.
Aprendi que estar em paz com a minha consciência é o melhor que posso fazer por mim.
Aprendi a fazer tricô.
Aprendi a fazer a minha parte, ainda que os outros não façam as suas.
Aprendi que podemos dar a volta por cima.
Aprendi a que ter amigas é reconfortante.
Aprendi o prazer e a liberdade da literatura.
Aprendi a história da formiga e da cigarra.
Aprendi a ter orgulho pela marca de batom do seu beijo no meu rosto.
Aprendi a rezar, ainda quando não sabia o significado daquelas palavras difíceis.
Aprendi como é delicioso dormir com a mamãe e ficar bem quentinha com o calor dela.
Aprendi, aprendi, aprendi.
E ainda aprendo.
Mas a principal lição que invade o meu coração quando penso em você é a lição do amor.
Sim, pois você me ensinou a coisa mais importante da vida: a amar.
Você me ensinou a amar me amando com toda a sua ternura.
Com todos os seus beijos e abraços.
Com todas as suas palavras doces.
Tudo o que eu sou hoje é fruto desse amor.
Todo o amor que eu sei, todo o amor que eu dou para a minha filha, nasceu em você.
E com as flores que você colocava em nossa sala para a vovó, eu aprendi que o amor de nossas mães mora para sempre dentro do nosso coração, independente de onde elas estiverem.
Amo você, mãe, para sempre.

(imagem: Patricia Metola)

7.2.08

Hunter "Patch" Adams


Cito abaixo alguns trechos ditos pelo Dr. Patch Adams na entrevista concedida ao programa RODA VIVA, da TV Cultura, exibido em 05/11/2007 e reprisado em 04/02/2008:
Mãe
"A minha força veio porque tive uma mãe espetacular. Só procuro ser como a minha mãe. Minha mãe só amou. Só a vi dando amor para mim e para o meu irmão. O meu irmão é meu assistente. Ele tem 63 anos e eu 62 anos. Mal podemos esperar para irmos ao próximo campo de refugiados. A nossa mãe criou dois homens que querem tirar férias em campo de refugiados."
Ilusão
"Como fomos tão enganados a ponto de acreditar que queremos morar em um grande prédio, ter um lindo carro para dirigir, muito dinheiro no banco, férias elegantes... há pessoas com fome! Estamos todos dentro de uma cesta de mentiras. Porque nós sabemos o que precisamos. Precisamos de comida e de amigos. "
Cura
"O que eu penso sobre a cura? A cada ano eu me torno mais humilde quanto ao conceito da cura. É arrogância e é um perigo entrar na medicina, ou em qualquer arte de cura, pensando na cura. Porque você aprenderá humildade na primeira semana. O seu trabalho não é curar, é cuidar. Você sempre pode cuidar. Totalmente. Cuidar."
Indústria farmacêutica
"A indústria farmacêutica nunca se preocupa com a cura. Ela só se preocupa com o lucro. Tem a mais alta margem de lucro do que qualquer outra corporação no mundo. Vendem substâncias sabendo, por pesquisas, que não ajudam. Mas ela falsifica a pesquisa, assim, pílulas, pílulas perigosas, são dadas à população."
"As empresas farmacêuticas são as empresas mais nojentas, fétidas e horrendas do planeta. Estão comprando a Amazônia. Sabiam disso? Empresas transnacionais estão comprando a Amazônia."
Televisão
"A televisão deveria ser devolvida às pessoas, devia ser retirada das mãos das grandes corporações multinacionais. A televisão deveria ser utilizada para educar as pessoas para o amor.Milhões de dólares são dados a apresentadores medíocres, de programas igualmente medíocres, para que nossos filhos assistam e queiram ser como eles.Todas as mensagens disponíveis para as crianças na televisão dizem “você quer dinheiro e poder”. Os que são pobres, roubam para conseguir isso. Os que são ricos, se tornam mais ricos."
Política hospitalar
"No Gesundheit pagamos o mesmo salário para a pessoa que varre o chão e para o médico que faz a cirurgia. Trezentos dólares. E mesmo assim recebemos centenas de médicos querendo trabalhar lá."
"Trabalhamos com a medicina como as mães trabalham em casa."
Amor
"Qual a sua estratégia de amor? Para a coisa mais importante da vida, o amor, não temos um plano bem pensado."
Capitalismo
"A pior coisa da história: capitalismo. Vai extinguir a nossa raça, não há dúvida."
______________________________________
Observações:
1. A separação e indicação dos temas por tópicos foi feita por minha conta.
2. Patch Adams foi o fundador do
Instituto Gesundheit em 1972. Clique e confira.
2. Para ver a entrevista no youtube,
clique aqui.
3. Imagem: ação humanitária em Cambodia, em 2003. Copiada do site do Instituto Gesundheit.

6.2.08

Televisão...

(obs.: clique na imagem para ampliar)

Em tempos de BBB...

A tirinha linda do Calvin é só para amenizar a seriedade e a gravidade do tema.

Para quem gosta do assunto, vale a pena visitar o site: Desligue a tv!. Atenção especial para o filminho "não deixe a TV hipinotizar você" (canto direito inferior do site). Gosto muito.

imagem: http://depositodocalvin.blogspot.com/

5.2.08

Capitulação

Eu tentei não enveredar por outros temas.
Tentei restringir o suspiro às prosas e poesias.
Suspiro...
Suave, poético e delicado.

Rendi-me.
Sim, pois não sou só suavidade.
Tampouco só poesia.
E menos ainda só delicadeza.

Tantos outros temas me invadem diariamente, e nem todos são necessariamente poéticos. Assim, decidi ampliar os assuntos do suspiro, ampliando também suas formas de expressão. A poesia, a suavidade e a delicadeza permanecerão, nos posts e momentos certos (na verdade, arrisco dizer que elas ainda serão a maioria. Será?).

31.1.08

Rainha de mim

No dia em que cada palavra atravessar os meus dedos sem pausa, sem pudor e sem reservas. Quando o caminho traçado por ela (nascida na minha cabeça ou brotada no meu peito, passando por dentro de mim, atravessando os meus dedos para, enfim, encontrar o papel) for completamente livre, sem qualquer obstáculo. Estrada lisa, reta e ensolarada. Sem farol e sem lombada. Nesse dia, nesse sim, serei coroada: rainha de mim.

“E no final assim calado
Eu sei que vou ser coroado rei de mim."
(Marcelo Camelo – música “de onde vem a calma”)

21.1.08

mosaico

aqueles caquinhos vermelhos
do chão da casa da minha avó
(e do chão da casa de todas as avós)
guardam todos os pedaços
bem juntos, grudados
da minha infância

19.1.08

o chamado

tenho sentido
a solidão
me chamando
insistentemente
para dentro
de mim

18.1.08

Pequena história da "poesia das borboletas no estômago"

um dia
de tão cheia
a poesia
(das borboletas no estômago)
saiu toda pela boca
e foram tantos versos lindos
que a voz se tornou pouca

então a boca, já aberta,
serviu de passagem
para todas aquelas borboletas...
agora tão mais felizes
por estarem, enfim
livres

(para Renata, com muito carinho, vide sua poesia "risca-aparece")



Imagem: Ana Oliveira
(http://ilustrana.blogspot.com/2006/09/borboletas-na-barriga.html)

15.1.08

Adesivos de identificação (ou: a menina que adorava livros)


Ela era criança. E adorava livros. Livros e cadernos. Cadernos, mesmo vazios. Melhor dizendo: cadernos, especialmente os vazios (pois neles ainda poderia conter tudo).
O que mais gostava no período de volta às aulas era o dia da compra do material. Cheiro de livro novo. Imagens de livro novo. Cadernos, brancos e lisos, sem marcas das lições aprendidas ou deformações decorrentes do uso contínuo.
Espalhava tudo em cima da escrivaninha. Folheava os livros imaginando como seria quando já estivesse nas páginas tal e tal. Encapava com plástico transparente, cuidadosamente. Separava os cadernos por matérias. Português e matemática sempre acabavam ganhando os cadernos mais grossos.
Faço aqui uma pausa para anotar que tudo isso não deve ser confundido com gosto por estudar, que a menina também nutria, é verdade, mas não é disso que trata esse relato. O fato é que, para ela, estudo nenhum se comparava com o prazer primeiro de receber os livros e os cadernos novos. Esse era, sem dúvida, maior do que aquele. Talvez pelas infinitas possibilidades que, em silêncio, habitam uma folha em branco. Talvez por todas as descobertas guardadas em cada livro ainda não lido. Talvez por tantos outros motivos, sabidos apenas pela menina.
Mas voltemos ao nosso relato, que já está por terminar.
Depois de tudo pronto, livros encapados e cadernos separados, seguia para a parte final: adesivos de identificação (a escola exigia, afinal, eram quarenta alunos diferentes, com quarenta livros iguais, todos dentro de uma mesma sala. Há de se prezar por certa ordem).
Pois bem. A tarefa de escrever o nome dela nos adesivos de identificação era orgulhosamente cedida ao pai. Seu pai tinha uma caligrafia impecável. Letras de forma, grandes e clássicas.
A letra de seu pai deixava seus livros ainda mais bonitos.
A letra do pai protegia todo o tesouro da menina.

imagem: Antonio Manuel Pinto da Silva

12.1.08

Pedido

(inspirado e baseado no texto "Por que?" de Kath)

não me interprete
me aceite
essa sou eu
tenho defeitos
e coisas legais
posso mudar
mas não demais

não me julgue
essa não sou eu
me escute
mais uma vez
e sempre
incansavelmente
até conseguirmos
nos entender
(nós três)

10.1.08

Clarear

fiz do teu nome um verbo
sempre presente

fiz do teu nome um verbo
que conjugo
em todos os tempos

8.1.08

Descuido

por acharem que já se conheciam...
perderam-se
esqueceram que eram novos
a cada novo dia
e a flor do amor
morreu sozinha
com a boca cheia de palavras
e os olhos cheios de ternura

Encontro

quando penso no que eu me diria
se me encontrasse comigo
descubro serem as mesmas coisas
que meu pai já um dia me dizia
curiosa essa vida
andamos tanto para, no fim,
voltarmos ao ponto de partida

7.1.08

DiariaMente

incansavelmente
a minha mente
mente

ignorando sempre
os apelos diários
do meu coração

6.1.08

Pureza

para conversarmos
feito duas crianças
ainda precisamos
crescer muito

5.1.08

Boas maneiras

estes que vivem atormentados
buscando saber a origem da vida
parecem-me
(e com todo respeito, eu digo)
um tanto mal agradecidos

presente é presente
aceite!
e sorria...
(essa é a melhor maneira
de entender a vida)

4.1.08

Desejo de ano novo II - eu e você

que
de dentro de mim
eu possa te olhar
e, sem me perder de vista,
te acompanhar

(e amar, e amar, e amar)

Desejo de ano novo

que dentro de mim
cada segundo
inaugure o mundo
e que eu veja tudo
como se fosse
a primeira vez