31.1.08

Rainha de mim

No dia em que cada palavra atravessar os meus dedos sem pausa, sem pudor e sem reservas. Quando o caminho traçado por ela (nascida na minha cabeça ou brotada no meu peito, passando por dentro de mim, atravessando os meus dedos para, enfim, encontrar o papel) for completamente livre, sem qualquer obstáculo. Estrada lisa, reta e ensolarada. Sem farol e sem lombada. Nesse dia, nesse sim, serei coroada: rainha de mim.

“E no final assim calado
Eu sei que vou ser coroado rei de mim."
(Marcelo Camelo – música “de onde vem a calma”)

21.1.08

mosaico

aqueles caquinhos vermelhos
do chão da casa da minha avó
(e do chão da casa de todas as avós)
guardam todos os pedaços
bem juntos, grudados
da minha infância

19.1.08

o chamado

tenho sentido
a solidão
me chamando
insistentemente
para dentro
de mim

18.1.08

Pequena história da "poesia das borboletas no estômago"

um dia
de tão cheia
a poesia
(das borboletas no estômago)
saiu toda pela boca
e foram tantos versos lindos
que a voz se tornou pouca

então a boca, já aberta,
serviu de passagem
para todas aquelas borboletas...
agora tão mais felizes
por estarem, enfim
livres

(para Renata, com muito carinho, vide sua poesia "risca-aparece")



Imagem: Ana Oliveira
(http://ilustrana.blogspot.com/2006/09/borboletas-na-barriga.html)

15.1.08

Adesivos de identificação (ou: a menina que adorava livros)


Ela era criança. E adorava livros. Livros e cadernos. Cadernos, mesmo vazios. Melhor dizendo: cadernos, especialmente os vazios (pois neles ainda poderia conter tudo).
O que mais gostava no período de volta às aulas era o dia da compra do material. Cheiro de livro novo. Imagens de livro novo. Cadernos, brancos e lisos, sem marcas das lições aprendidas ou deformações decorrentes do uso contínuo.
Espalhava tudo em cima da escrivaninha. Folheava os livros imaginando como seria quando já estivesse nas páginas tal e tal. Encapava com plástico transparente, cuidadosamente. Separava os cadernos por matérias. Português e matemática sempre acabavam ganhando os cadernos mais grossos.
Faço aqui uma pausa para anotar que tudo isso não deve ser confundido com gosto por estudar, que a menina também nutria, é verdade, mas não é disso que trata esse relato. O fato é que, para ela, estudo nenhum se comparava com o prazer primeiro de receber os livros e os cadernos novos. Esse era, sem dúvida, maior do que aquele. Talvez pelas infinitas possibilidades que, em silêncio, habitam uma folha em branco. Talvez por todas as descobertas guardadas em cada livro ainda não lido. Talvez por tantos outros motivos, sabidos apenas pela menina.
Mas voltemos ao nosso relato, que já está por terminar.
Depois de tudo pronto, livros encapados e cadernos separados, seguia para a parte final: adesivos de identificação (a escola exigia, afinal, eram quarenta alunos diferentes, com quarenta livros iguais, todos dentro de uma mesma sala. Há de se prezar por certa ordem).
Pois bem. A tarefa de escrever o nome dela nos adesivos de identificação era orgulhosamente cedida ao pai. Seu pai tinha uma caligrafia impecável. Letras de forma, grandes e clássicas.
A letra de seu pai deixava seus livros ainda mais bonitos.
A letra do pai protegia todo o tesouro da menina.

imagem: Antonio Manuel Pinto da Silva

12.1.08

Pedido

(inspirado e baseado no texto "Por que?" de Kath)

não me interprete
me aceite
essa sou eu
tenho defeitos
e coisas legais
posso mudar
mas não demais

não me julgue
essa não sou eu
me escute
mais uma vez
e sempre
incansavelmente
até conseguirmos
nos entender
(nós três)

10.1.08

Clarear

fiz do teu nome um verbo
sempre presente

fiz do teu nome um verbo
que conjugo
em todos os tempos

8.1.08

Descuido

por acharem que já se conheciam...
perderam-se
esqueceram que eram novos
a cada novo dia
e a flor do amor
morreu sozinha
com a boca cheia de palavras
e os olhos cheios de ternura

Encontro

quando penso no que eu me diria
se me encontrasse comigo
descubro serem as mesmas coisas
que meu pai já um dia me dizia
curiosa essa vida
andamos tanto para, no fim,
voltarmos ao ponto de partida

7.1.08

DiariaMente

incansavelmente
a minha mente
mente

ignorando sempre
os apelos diários
do meu coração

6.1.08

Pureza

para conversarmos
feito duas crianças
ainda precisamos
crescer muito

5.1.08

Boas maneiras

estes que vivem atormentados
buscando saber a origem da vida
parecem-me
(e com todo respeito, eu digo)
um tanto mal agradecidos

presente é presente
aceite!
e sorria...
(essa é a melhor maneira
de entender a vida)

4.1.08

Desejo de ano novo II - eu e você

que
de dentro de mim
eu possa te olhar
e, sem me perder de vista,
te acompanhar

(e amar, e amar, e amar)

Desejo de ano novo

que dentro de mim
cada segundo
inaugure o mundo
e que eu veja tudo
como se fosse
a primeira vez