28.2.08

morte e vida

Morte. Qualquer coisa linda havia morrido dentro dela. Era preciso aceitar. Era preciso erguer a cabeça e continuar. Ainda com o peito sangrando um pouco a cada dia, um tanto a cada lembrança. Era preciso continuar mesmo com a falta de encanto. Viver sem a certeza da pureza. Mas como? Tão doído isso. Ela só sabia amar assim. Inteira. Acreditava em toda aquela beleza. Admirava. E agradecia. Todos os dias. Queria aquele amor imaculado. Queria. Mas não podia controlar tudo. Só a si mesma. E, dentro de si, sabia. Precisava estar livre. Livre de tudo que não lhe pertencia. Precisava deixar aquele amor morrer. Cada flor e cada dor. Cada pedaço daquele amor. Tudo. Só assim, morrendo, poderia nascer de novo. Mesmo amor, amor novo. Semente. Broto. Regados com encanto. Espera e esperança. Até que o tronco esteja forte. E a ternura, então, volte. Até que as flores sejam muitas. E o silêncio repleto de sentido. Até que os frutos estejam maduros. E tudo volte a ter gosto. Vida.

27.2.08

Revelação

Todo amor morava dentro dela. Sempre.
Todo amor morava dentro dela. Simplesmente.

Em uma fração de segundo, ela abraçou o mundo.
E seu coração alcançou a liberdade.

Liberdade dos que não precisam de nada.
E, felizes da vida, amam.

Solitariamente.

25.2.08

Transitoriedade

Do livro "Poesia Numa Hora Dessas?!";
Luis Fernando Veríssimo;
Editora Objetiva.

silêncio

o silêncio me olha
com essa cara vazia
cheio de melancolia

o silêncio é mais forte
do que o meu grito
falado ou escrito

o silêncio só morre
quando bradado
por duas vozes

23.2.08

cartinha

filha,
você nem imagina
mas quem me alimenta
deleite
de vida
é você.

22.2.08

liberdade

ela era peixe
mas tinha asas
e nadava no ar

ele era pássaro
mas tinha cauda
e voava no mar

às vezes, olhavam-se:
tempestade em alto mar

de tanto amor
de tanto amar

21.2.08

vida

para vencer o medo
para mergulhar fundo
para enlaçar os dedos
para entregar tudo
para viver em paz
em paz
paz

é preciso
coragem

18.2.08

minha filha

amor
que enche meu peito
e transborda
todo santo dia

15.2.08

Filme triste

Mesmo dentro da hora ela já acorda atrasada. Prepara o café, arruma a mesa, sacode as crianças. Olha atravessada para o marido. Será possível que ele nunca vai ajudar em nada? Corre. Leva o cachorro para a rua. Volta. Come. Dispara orientações para empregada. Será possível que ela nunca vai entender nada? Uma porta. Sai de casa. Correndo. Chega no trabalho. Senta. Já desanimada. Começa. Cadê os papéis do banco? Depressa. Mas será possível que todo mundo vai sempre fazer tudo errado? Almoço. Essa vida, quer dizer, essa comida continua sem gosto. Reunião. Corre. Fim do dia. Ai que dor nas costas. Trânsito. Trânsito. Trânsito. Chega em casa. Prepara. Arruma. Sacode. Cachorro. Marido. Crianças. Filme em preto e branco.

14.2.08

explosão da vida

Ela estava com uma barriga imensa. Grávida. Caminhava no parque. Calmamente. Olhando o mundo. Olhando as gentes. Andou. Depois sentou. De frente para o lago. O Sol lhe batia na face. Ela olhava as árvores com os olhos entreabertos. Via raios brancos, desenhados pelo Sol, em toda a paisagem. Era como uma fotografia. Uma fotografia que se movia. Pessoas por entre os raios brancos. Que iam e vinham. Só os raios permaneciam. A moça também. Ficou ali um bom tempo. Ora fechava os olhos e sentia o calor aquecer seu rosto. Aquecer sua barriga, que se movia. Ela estava parada, mas não a sua filha. Ora abria uma frestinha de um dos olhos e via tudo o que via. Via pessoas passando e olhando sua barriga. Via cachorros correndo com as crianças de guia. Via. No meio de tantos, viu um senhor. Caminhando na trilha de terra, pelo meio das árvores. Ia virar a esquina. Mas parou. E tomou o caminho que terminava nela. E assim vinha. Olhando para ela. Ela estava com os olhos entreabertos. E perguntava-se se o senhor percebia. Ou se achava que ela nada via. O senhor chegou perto dela. E parou. Na frente dela. E da barriga grande dela. Rosto sereno. Enrrugado de tanta vida. A moça abriu os olhos. Olhou o senhor, que olhava para ela. Ele pediu licença para falar. Ela concedeu. O Sol brilhava entre os dois. Ele disse que o anjo da vida estava ali, bem ao lado dela. Guardando e aguardando. Protegendo e acompanhando. Ela sorriu. Ele prosseguiu. Disse que tudo daria certo. E que a felicidade seria sua fiel companheira de vida. Ela sorriu mais ainda. E disse amém. Os olhos do senhor sorriram para ela. E para toda aquela barriga. Ele voltou para aquela esquina, antes preterida. No dia seguinte a moça pariu sua menina. Exatamente como queria. E estava feliz da vida. E agradecida. Tanto que não cabia. Vida.

13.2.08

Nos braços de Deus

Eram dois bebezinhos. Duas meninas. Uma ficou na terra e a outra voltou para o céu. E a mãe, sessenta anos depois, conta sua história com ternura. E lágrimas. A mãe lembra de sua filha querendo acreditar que fez tudo o que podia. Sozinha, com duas crianças. Fez tudo. Tudo o que podia, tudo o que sabia, tudo o que conseguia. Deus sabe que sim. Mas ela não. Sofre. Lamento de mãe dói fundo no peito, e não há tempo que dê jeito. Mas Deus sabe e, com todo carinho, segura sua menina. E aguarda (sabido que é das coisas da vida). A mãe terá sua menina nos braços de novo, a receberá dos braços Dele. E, com o peito doído de saudade, mas invadido de felicidade, vai acalentar sua menina com todo o amor que ficou guardado esses anos todos. Sim, Deus sabe.

Quer saber?

Você não sabe do que está falando. Você acha que tudo é fácil. Você acha que tudo pode. Não, não pode. Não, nem sempre dá. Você caiu de pára-quedas e não conhece esse chão. Vou repetir: você c-a-i-u. Portanto, quer um conselho intrometido? Melhor levantar devagarzinho, e ter a humildade de ouvir as pessoas que não querem passar a perna em você. Outras opções? Sim: você pode continuar de mãos dadas com esse bando de baba-ovos, que dizem sim para tudo que você pensa, e choram sentidos e fingidos, até fazerem você acreditar, e arrancarem o seu último tostão. Eles têm pose. Falam bonito. Prometem castelos. E você bate palmas. Quer saber? Eu não quero mais saber. Não vou lutar por você. Estou cansada de ser desacreditada. Tenho tanto a fazer por mim, que já estou atrasada.

ilusões


depois da morte
de cada uma delas
eu poderei
nascer

OGM


Ontem, em Brasília, o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) autorizou o plantio e a comercialização no país de duas variedades de milho trangênico: o milho da Bayer (Liberty Link) e o milho da Monsanto (MON810).

O CNBS é um órgão de assessoramento superior do Presidente da República, constituído de 11 Ministros de Estado, com o objetivo de formular e implementar a Política Nacional de Biossegurança. Uma das atribuições do CNBS é decidir, em última e definitiva instância, sobre os processos relativos a atividades que envolvam o uso comercial de organismos geneticamente modificados (OGM) e seus derivados.

Dos onze ministros que integram o CNBS, sete foram a favor da aprovação da medida.

Pessoalmente, sou contra OGM.

Homem mexendo no cerne das espécies, alterando genes, rompendo a barreira do cruzamento natural, transferindo material genético entre vegetais, animais, bactérias, vírus e humanos. Não consigo ficar à vontade com a idéia. Nem por um instante.

Saúde e meio ambiente:

Estudos sérios e comprometidos com a causa comprovam a contaminação genética provocada por lavouras de milho transgênico. Também existem evidências científicas sobre o risco à saúde e ao meio ambiente, e relatórios de governos europeus justificando o motivo da proibição dessas variedades nos respectivos países (todos estes documentos estão disponíveis no site do Greenpeace).

As variedades autorizadas no Brasil foram proibidas em inúmeros países. O milho da Monsanto (MON810), por exemplo, está proibido na Alemanha, Áustria, França (maior país agrícola da Europa), Grécia, Hungria, Polônia e Suíça. No Reino Unido, a própria Bayer retirou seu pedido de liberação comercial, já que não podia garantir a segurança do milho Liberty Link.

Questão social:
Por trás do cultivo de OGM se escondem interesses poderosos de grandes empresas que pretendem controlar toda a cadeia alimentar, desde a produção até o consumo. Isso significa a total dependência dos pequenos produtores rurais dos interesses destas empresas.

Um dos argumentos de quem defende a manipulação genética é a possibilidade de aumento da produção de alimentos, para combater a fome no mundo. Empresas capitalistas, multinacionais, preocupadas com a fome no mundo. Sim, claro. Há muito já se sabe que o problema da fome no mundo não é quantitativo, mas sim político (problemas de distribuição de alimentos).

Por fim, para quem quer ficar longe dos transgênicos e, de quebra, boicotar toda essa politicagem, no site do Greenpeace tem um guia de produtos que contêm alimentos geneticamente modificados. Vale a pena conferir, a lista é atualizada periodicamente.
imagem: Arthur Franco

11.2.08

Meu primeiro amor


Aprendi com você muitas coisas, e muitas, e tantas, que contá-las todas seria impossível.
Aprendi a ser honesta, especialmente comigo.
Aprendi a ter bom humor, comigo e com os outros.
Aprendi a seguir os meus princípios, ainda que solitariamente.
Aprendi a dizer a verdade, apesar das conseqüências.
Aprendi a receber as pessoas com carinho e boa vontade.
Aprendi que estar em paz com a minha consciência é o melhor que posso fazer por mim.
Aprendi a fazer tricô.
Aprendi a fazer a minha parte, ainda que os outros não façam as suas.
Aprendi que podemos dar a volta por cima.
Aprendi a que ter amigas é reconfortante.
Aprendi o prazer e a liberdade da literatura.
Aprendi a história da formiga e da cigarra.
Aprendi a ter orgulho pela marca de batom do seu beijo no meu rosto.
Aprendi a rezar, ainda quando não sabia o significado daquelas palavras difíceis.
Aprendi como é delicioso dormir com a mamãe e ficar bem quentinha com o calor dela.
Aprendi, aprendi, aprendi.
E ainda aprendo.
Mas a principal lição que invade o meu coração quando penso em você é a lição do amor.
Sim, pois você me ensinou a coisa mais importante da vida: a amar.
Você me ensinou a amar me amando com toda a sua ternura.
Com todos os seus beijos e abraços.
Com todas as suas palavras doces.
Tudo o que eu sou hoje é fruto desse amor.
Todo o amor que eu sei, todo o amor que eu dou para a minha filha, nasceu em você.
E com as flores que você colocava em nossa sala para a vovó, eu aprendi que o amor de nossas mães mora para sempre dentro do nosso coração, independente de onde elas estiverem.
Amo você, mãe, para sempre.

(imagem: Patricia Metola)

7.2.08

Hunter "Patch" Adams


Cito abaixo alguns trechos ditos pelo Dr. Patch Adams na entrevista concedida ao programa RODA VIVA, da TV Cultura, exibido em 05/11/2007 e reprisado em 04/02/2008:
Mãe
"A minha força veio porque tive uma mãe espetacular. Só procuro ser como a minha mãe. Minha mãe só amou. Só a vi dando amor para mim e para o meu irmão. O meu irmão é meu assistente. Ele tem 63 anos e eu 62 anos. Mal podemos esperar para irmos ao próximo campo de refugiados. A nossa mãe criou dois homens que querem tirar férias em campo de refugiados."
Ilusão
"Como fomos tão enganados a ponto de acreditar que queremos morar em um grande prédio, ter um lindo carro para dirigir, muito dinheiro no banco, férias elegantes... há pessoas com fome! Estamos todos dentro de uma cesta de mentiras. Porque nós sabemos o que precisamos. Precisamos de comida e de amigos. "
Cura
"O que eu penso sobre a cura? A cada ano eu me torno mais humilde quanto ao conceito da cura. É arrogância e é um perigo entrar na medicina, ou em qualquer arte de cura, pensando na cura. Porque você aprenderá humildade na primeira semana. O seu trabalho não é curar, é cuidar. Você sempre pode cuidar. Totalmente. Cuidar."
Indústria farmacêutica
"A indústria farmacêutica nunca se preocupa com a cura. Ela só se preocupa com o lucro. Tem a mais alta margem de lucro do que qualquer outra corporação no mundo. Vendem substâncias sabendo, por pesquisas, que não ajudam. Mas ela falsifica a pesquisa, assim, pílulas, pílulas perigosas, são dadas à população."
"As empresas farmacêuticas são as empresas mais nojentas, fétidas e horrendas do planeta. Estão comprando a Amazônia. Sabiam disso? Empresas transnacionais estão comprando a Amazônia."
Televisão
"A televisão deveria ser devolvida às pessoas, devia ser retirada das mãos das grandes corporações multinacionais. A televisão deveria ser utilizada para educar as pessoas para o amor.Milhões de dólares são dados a apresentadores medíocres, de programas igualmente medíocres, para que nossos filhos assistam e queiram ser como eles.Todas as mensagens disponíveis para as crianças na televisão dizem “você quer dinheiro e poder”. Os que são pobres, roubam para conseguir isso. Os que são ricos, se tornam mais ricos."
Política hospitalar
"No Gesundheit pagamos o mesmo salário para a pessoa que varre o chão e para o médico que faz a cirurgia. Trezentos dólares. E mesmo assim recebemos centenas de médicos querendo trabalhar lá."
"Trabalhamos com a medicina como as mães trabalham em casa."
Amor
"Qual a sua estratégia de amor? Para a coisa mais importante da vida, o amor, não temos um plano bem pensado."
Capitalismo
"A pior coisa da história: capitalismo. Vai extinguir a nossa raça, não há dúvida."
______________________________________
Observações:
1. A separação e indicação dos temas por tópicos foi feita por minha conta.
2. Patch Adams foi o fundador do
Instituto Gesundheit em 1972. Clique e confira.
2. Para ver a entrevista no youtube,
clique aqui.
3. Imagem: ação humanitária em Cambodia, em 2003. Copiada do site do Instituto Gesundheit.

6.2.08

Televisão...

(obs.: clique na imagem para ampliar)

Em tempos de BBB...

A tirinha linda do Calvin é só para amenizar a seriedade e a gravidade do tema.

Para quem gosta do assunto, vale a pena visitar o site: Desligue a tv!. Atenção especial para o filminho "não deixe a TV hipinotizar você" (canto direito inferior do site). Gosto muito.

imagem: http://depositodocalvin.blogspot.com/

5.2.08

Capitulação

Eu tentei não enveredar por outros temas.
Tentei restringir o suspiro às prosas e poesias.
Suspiro...
Suave, poético e delicado.

Rendi-me.
Sim, pois não sou só suavidade.
Tampouco só poesia.
E menos ainda só delicadeza.

Tantos outros temas me invadem diariamente, e nem todos são necessariamente poéticos. Assim, decidi ampliar os assuntos do suspiro, ampliando também suas formas de expressão. A poesia, a suavidade e a delicadeza permanecerão, nos posts e momentos certos (na verdade, arrisco dizer que elas ainda serão a maioria. Será?).