28.3.08

canto de amor

desejo profundo
que sejas feliz

antes de mim
antes de nós

ainda que
eu só

feliz

27.3.08

menina


amor que guardo
dentro do peito
(perfeito)

amor que caminha
mão segurando a minha
(pequena)

amor que alimenta
todas as minhas crenças
(bendito)

amor que clareia
toda minha esteira
(estrelas)

amor que invade
todos os meus sentidos
(pureza)

amor que levo
pela vida inteira
(poema)

19.3.08

MUDAnças


.calemos
deixemos que o silêncio
mostre o caminho...

... e o sentido
que as palavras
jamais poderiam.

imagem: Ricardo Loureiro

17.3.08

alento


eu não sei amar de menos

para amanhã
aceito um amor sereno

mas para hoje
eu quero amor demais




imagem: Francisco Miguel Santos

universo

palavras unidas
no mesmo verso

14.3.08

eu, ela e o nosso futuro


Eu não sou nada disso. Aqui é tão gelado. Meus lábios ficam roxos de insatisfação. Nenhum calorzinho de emoção tem espaço. Frio condicionado. Eu não quero chegar onde eles estão. Meu sentido é contrário. Eu gosto de sentir o gosto que as coisas têm. Gosto de calma. Gosto de casa. Não gosto de plantas artificiais. Gosto de sentar na grama molhada. Gosto de andar com os pés descalços. Não gosto de janelas fechadas. Gosto do azul a perder de vista. Gosto do calor aquecendo os sentidos. Não gosto de frases pensadas. Gosto de risadas largas. Gosto das palavras lidas nos olhos. Não gosto de agendas lotadas. Gosto das surpresas que o mundo guarda. Gosto de vidas desgovernadas. Definitivamente, eu não gosto daqui. Tudo é sempre igual. Tudo girando em torno do mesmo propósito vil. A única planta realmente viva mora na minha sala. Eu e ela, bravas guerreiras. Ela sim, sorri todos os dias. Olho para ela e reforço a minha promessa: muito em breve, eu e ela, de mãos dadas, estaremos bem longe daqui.

imagem: Susana Camões
(
http://olhares.aeiou.pt/)

13.3.08

todas nos seus (a)braços


abraço minha filha com todo amor que sinto

queria abraçar todas aquelas crianças
poder cuidar de cada uma delas
exatamente como cuido da minha filha

mesmo sabendo que isso não vai saciar suas fomes
nem curar suas feridas
rezo
estendo a elas todo o meu amor
todos os dias
em todos os abraços que dou em minha filha

imagem: Jose Alves Filho
(criança vendendo peixe em Terezina-PI)

7.3.08

mulher de tantas vidas

Ela estava com uma barriga imensa. Carregava atrás de si um carrinho de madeira com restos de material reciclável. Tudo era conseguido nas ruas, nos lixos, nas casas que a ajudavam. Suas mãos estavam sujas. Sua camiseta era pequena demais para a barriga que se mostrava quase toda para fora. Seus cabelos encaracolados estavam meio presos e meio soltos, caindo sobre os olhos. Sua pele, bronzeada, não escondia suas cicatrizes. Seu rosto expressava sobrevivência. Seus pés, a dureza da vida. O Sol não dava trégua. Mas ela também não desistia. Andava. Procurando qualquer objeto que pudesse ser útil. Parou um instante para descansar. Então eu vi mais do que já tinha visto. Dentro de seu carrinho, no meio de tantos papéis e embalagens sujas, estava uma menina. Nem dois anos tinha ainda. Cabelos encaracolados como os da mãe. Roupas que não eram suas, grandes e gastas. Pele bronzeada dos tantos passeios. Ela brincava com os objetos dentro do carrinho. Distraidamente. Na parada, olhou para a mãe e sorriu. A mãe não retribuiu o sorriso. Secou o suor da testa com os braços, respirou fundo e novamente tomou seu carinho nas mãos. Sumiu dos meus olhos. Seguiu a sua vida. Carregando sua menina. Carregando sua barriga.

6.3.08

os olhos da vovó

no dia do seu aniversário
programei uma festa
balões coloridos
bolo e docinhos
quando você entrou na sala
seus olhos sorriram
e a festa foi completa
depois, mais tarde,
olhando-me fundo
com seus olhos de menina
(que hoje moram no rosto da minha filha)
você me confessou
que nunca antes
havia recebido balões
em sua homenagem
e esse foi o presente
que você me deu
no dia do seu aniversário


4.3.08

Eu e o texto de Rubem Alves

Às vezes sou ética de princípios. Outras, contextual. Menos esta, mais aquela, confesso. Mas tenho descoberto que o princípio pelo princípio me endurece, enquanto o princípio contextualizado me liberta. Claro que essa não é a regra. Às vezes é ao contrário. Como tudo que é sentido na vida. Transformo-me. Aos poucos. Princípios, trago tantos. Mas não sei ainda se me servem ou se sou eu quem serve a eles. Vezes eu, vezes eles. Sei que encho a boca para cobrar os mesmos tantos dos que me acompanham. Estes que tentam acertar apesar dos tropeços. Revendo, diariamente, seus contextos. Na verdade que é só minha, penso na idéia de princípios contextualizados. Pois não creio na ausência total de princípios, tampouco na atitude puramente contextualizada, sem um pensamento curtido por trás. Nem isso, nem aquilo. Acredito, hoje sinto, na ética dos princípios contextualizados. Mas entendo que nem sempre é possível. No fundo, luto pela ética de aceitar o ser. Sendo, sinceramente, tudo o que pode crer.

Ética de Princípios - RUBEM ALVES

Duas éticas -a de princípios e a contextual.
A única pergunta a se fazer é:
"Qual delas está mais a serviço do amor?"
AS DUAS ÉTICAS: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos -a que os filósofos dão o nome de ética contextual.Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe...Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo.O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: "Doutor, será que eu escapo desta?"Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer?Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: "Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer..." Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano -"A senhora breve estará curada...'-, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" E ele dirá:"Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer..." Aí, então, os dois conversarão longamente -como se estivessem de mãos dadas ...- sobre a morte que os dois haverão de enfrentar. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade.Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem.Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"
Texto de Rubem Alves

Publicado na Folha, em 04/03/08
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0403200804.htm)