7.3.08

mulher de tantas vidas

Ela estava com uma barriga imensa. Carregava atrás de si um carrinho de madeira com restos de material reciclável. Tudo era conseguido nas ruas, nos lixos, nas casas que a ajudavam. Suas mãos estavam sujas. Sua camiseta era pequena demais para a barriga que se mostrava quase toda para fora. Seus cabelos encaracolados estavam meio presos e meio soltos, caindo sobre os olhos. Sua pele, bronzeada, não escondia suas cicatrizes. Seu rosto expressava sobrevivência. Seus pés, a dureza da vida. O Sol não dava trégua. Mas ela também não desistia. Andava. Procurando qualquer objeto que pudesse ser útil. Parou um instante para descansar. Então eu vi mais do que já tinha visto. Dentro de seu carrinho, no meio de tantos papéis e embalagens sujas, estava uma menina. Nem dois anos tinha ainda. Cabelos encaracolados como os da mãe. Roupas que não eram suas, grandes e gastas. Pele bronzeada dos tantos passeios. Ela brincava com os objetos dentro do carrinho. Distraidamente. Na parada, olhou para a mãe e sorriu. A mãe não retribuiu o sorriso. Secou o suor da testa com os braços, respirou fundo e novamente tomou seu carinho nas mãos. Sumiu dos meus olhos. Seguiu a sua vida. Carregando sua menina. Carregando sua barriga.

2 comentários:

Fabiola disse...

consigui ver a imagem

Renata disse...

linda descrição, tranbordando poesia. e tristeza também. mas já dizia Vinícius, a coisa toda do samba com beleza, não é? fazer o que.
bjo