27.8.09

dias.

dias em que dou-me conta de que a amoreira encheu de folhas e de pequenos frutos inda verdes. dias em que os passarinhos passam a tarde toda passarinhando no meu quintal, bicando os abacates recém caídos do abacateiro. dias em que, olhando bem, desconfio que a gata está grávida, pois anda mais gorda do que o gato. dias em que o sol chega cedo e aquece as cores no varal. dias em que descubro um ninho que a galinha fez, bem escondidinho e disfarçado com palhas e folhas, e já com dois pequenos ovos aguardando para serem chocados. dias em que as sementes de mamão plantadas no mês passado resolvem brotar no vasinho. dias em que as cachorras, os gatos, e as galinhas dividem o quintal harmoniosamente. dias em que a grama está coberta de folhas secas. dias em que a varanda está cheia de crianças sentadas no chão, comendo mexericas. dias em que as formigas fazem trilha pelo arame do varal, e por lá caminham em fila, sempre juntas, uma atrás da outra, outra atrás da uma, passando pelas pequenas lombadas formadas pelas roupas penduradas. dias em que os tucanos aparecem nos galhos mais altos. dias em que abro a porta e me deparo com florzinhas brancas e lilases recém brotadas no arbusto até então sempre verde. dias em que minha filha chega em casa descalça e com as mãos cheias de sementes garimpadas pelo chão de terra. dias. que dias!
imagem: Irisz Agocs

17.8.09

vez sou outra

por vezes
por algumas (raras) vezes
sou exatamente como gostaria

9.8.09

A vida tem sons


Lembro das suas colagens. Aquela sua pasta amarela enorme. Os seus livrinhos de músicas. E você tocando violão. E nós cantando juntas. E aquela música do tibum tibum que você me ensinou. Você nas reuniões da minha escola. E o Oswaldo Montenegro. E o direito. E (só) você que ri das minhas piadas. E os dias que você me buscava na faculdade. As tantas vezes que eu dormi na sua casa. E a costura. E você que me pediu para abraçar as meninas caso ocorresse um terremoto na casa da mamãe. As meninas. Ah, as meninas! Muito amor. Muita risada. E a sua mão estendida, sempre. E tantas e tantas coisas mais dividimos. E outras tantas e tantas mais me levam a você. E levarão sempre. E um segredo: uma vez, quando eu ainda era criança, lí na contra capa de um caderno seu o seguinte verso: “A vida tem sons que pra gente ouvir / precisa aprender a começar de novo / é como tocar o mesmo violão /e nele compor uma nova canção”. Na época eu sequer conhecia a música. Mas esse verso ficou rodando na minha cabeça de menina, querendo entender o seu sentido. Alguns anos depois a música chegou aos meus ouvidos, despretensiosamente, enquanto eu ouvia rádio. Conheci a música, reconheci o verso. Como um filme, tudo voltou na minha cabeça: o seu caderno, a sua letra, o verso. E hoje, repetidas vezes, em diferentes momentos, essa música chega aos meus ouvidos. E eu me lembro de você. E do seu caderno. E da sua letra. E lembro que posso começar de novo, que posso sempre compor uma música nova, com o meu velho violão de sempre. E é exatamente isso que eu desejo a você hoje: a certeza de que podemos sempre começar de novo, pois a vida nos guarda infinitos sons. Exatamente como você, um dia, sem querer, me ensinou. Amo você. Feliz Aniversário!
Imagem: Jana Magalhães