9.8.12

a vida não é uma resposta

Porque tem razões que desconhecemos. E querer entendê-las, da forma como imaginamos ser idealmente possível, não nos cabe. Algumas respostas são para o futuro. Talvez o aprendizado seja o da resignação. Aceitemos, pois, a dureza da vida. A natureza da vida. Alguns sentidos devem ser plantados agora. De forma dura. Com a mão calosa. No futuro colheremos seus frutos: doces (o fruto da tristeza é sempre doce). Por enquanto, apenas calemos. Minha mão está aqui, caso queira.
(obs.: para você, minha amiga querida!)
(imagem: Patrícia Metola)

8.8.12

Tempo para o tempo que se precisa



Eu queria escrever. Queria dizer daquele momento. Queria contar nos cadernos das minhas meninas cada palavra nova, cada passeio agradável. Escrever minhas intenções e meus planos. Responder o e-mail daquela amiga distante. E um cartão de aniversário dedicado. Queria dizer das tantas lembranças que guardo comigo e que cirandam entre a minha cabeça e o meu coração. Temo que desapareçam e me angustio - seria como perder um pouco de mim. Então, para não sofrer, esqueço que lembro e guardo tudo isso embaixo do travesseiro (nos breves segundos que levo para pegar no sono). Os dias me atropelam e eu, de fato, escrevo. Contratos. Lista de pendências. Lista do mercado. Tudo bem, também escrevo a lista de convidados e o cardápio para a festa das meninas. Mas minha alma não é só planejamento. Minha alma também anseia por momentos de devaneio (como um respiro para evitar o mofo). E cá estou eu, escrevendo! Sentindo um misto de culpa (por deixar minhas pendências labutais esperando), alívio (por finalmente devanear) e medo (pois não posso enveredar por estes caminhos da escrita: não têm volta). Dizem que essa coisa de não termos tempo para o tempo que se precisa é só por um tempo. Eu, além do tempo, no momento, não tenho escolha. Mas, como dizia meu pai (e escrevo agora para não perder mais essa embaixo do travesseiro): isso também passa.

24.3.12

tudo o que você quer ser

Um dia eu pedi para você vir dormir comigo na cama pois eu estava com medo. De manhã, eu percebi que havia feito xixi na cama. Então eu não queria levantar pois você iria acordar e perceber que eu tinha feito xixi justo na noite que você veio ficar comigo. Engraçado que eu não lembro do desfecho da história, só lembro disso: eu deitada na cama do seu lado, acordada, pensando no que fazer - e você dormindo. Eu usava sua escova de dentes (pois era a mais bonita) e experimentava o seu aparelho dental (você já sabia disso, não é?). Na horas vagas eu lia suas agendas gordas. E ouvia Raul Seixas pois você também ouvia. Queria dormir na sua cama pois era no alto. Eu preferia o cheetos mas você gostava mais do fandangos de presunto. Você não deixava eu encostar no seu ombro para dormir quando viajávamos com a família toda - e nos apertávamos nós quatro no banco traseiro. Eu vivia suas aventuras como se fossem minhas. E contava para todas as minhas amigas as suas peripécias. E você ganhou o cobertor de pele mais bonito. Eu queria ter os seus cabelos e os seus amigos. E ficava olhando você e olhando você e olhando você. Depois cresci. E passei então a querer ter as coisas que você tinha. Usava seus xampus e seus cremes. Suas camisas e seus perfumes. Lembro especialmente daquele moletom de algodão colorido e tricotado, que você me disse que ganhou de um surfista na Califórnia (“uau” – eu pensei). Só não usava os seus sapatos pois não me cabiam. Um dia você me disse que a vida era assim:  um dia a gente perde mas no outro a gente ganha. Um dia você teve um surto no trânsito pois eu estava dormindo no carro e você dirigindo, e você não aguentava mais isso: trânsito de manhã, eu dormindo, você dirigindo. E seguimos assim, dividindo – o quarto, o carro, as coisas, as brigas e as risadas. Um dia você me disse que precisava de um espaço só seu. Hoje a minha filha maior reclama da irmã menor que quer pegar tudo o que é dela e fazer tudo o que ela está fazendo. Eu, então, conto para ela a nossa história. E ela sorri. Hoje você faz 38 anos. E continua nos meus pensamentos. Sempre. Desejo para você tudo o que você quer ser. E agradeço por ter dividido tanto comigo. Só eu sei da sorte que tive por crescer tão perto de você. Feliz aniversário! Amo você.      

(imagem: Jessica Allen)

16.3.12

eu e ela


não precisa ter medo
do meu próximo passo
tudo o que busco
(e que agora revelo)
é fruto daquela flor
(branca e amarela)
que você tanto adora
e (sem saber)
plantou em mim

não precisa estar triste
pela nossa distância
onde quer que eu vá
levo-te comigo
- tão dentro do meu peito
que,  por vezes,
me confundo com seu jeito

olha mãe:
só temos razões para sorrir
sou parte de ti
e você mora em mim
inda que longe
mesmo que perto

para sempre
mãe e filha

 
(imagem: Irisz Agocs)
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Obs.: para minha fã número um
(ainda bem que existem as mães!).
Seus pedidos me inspiraram!