19.5.13

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amor meu amor:
estou preparando
alguns poemas para você
em breve, nos lugares de sempre
(em mim e em você)
 

(imagem: Patrícia Metola - adaptada)

2.4.13

O amor ainda é free


Você me disse que ia comigo na escolinha quando eu era pequena. Confesso que não lembro, mas acredito. Você me ensinou a pintar (sempre na mesma direção ou em bolinhas). Você fazia desenhos lindos, lindos, lindos. E eu não cansava de olhá-los. Você me contou sobre os planetas e a Via-Láctea. Você tinha um quadro do Michael Jackson no seu quarto, e eu ficava horas olhando para ele. Você me levava na piscina do prédio. Um dia eu peguei escondido uma bala de goma na sua gaveta, e minha boca ficou toda manchada de tinta (era uma daquelas balas com tinta no recheio). Você deu risada e disse que era para eu aprender a não mexer nas coisas dos outros. Você me emprestava os seus lápis de pintura. Você foi a primeira pessoa para quem eu contei, chorando e com a voz embargada, a minha primeira nota vermelha. Você sorriu (com um ar de “ah se todos os problemas do mundo fossem esse”) e depois foi comigo contar para a mamãe e para o papai. Você me contou os mistérios dos discos voadores. Uma vez, quando eu te procurei chorando e disse que tinha medo que a mamãe ou o papai morressem, você me perguntou, com um sorriso no canto da boca: “E a Tuca? Você não tem medo que a Tuca morra?”. Eu e você: gostamos de farinha láctea e de leite em pó. Quando você casou você me enviava cartas pelo correio. Eu podia contar tudo para você: você sempre me ouvia com olhos sinceramente interessados. Hoje, você senta para desenhar com as minhas filhas, exatamente como você fazia comigo. Você explica para elas muitas coisas, com calma e com detalhes, exatamente como você fazia comigo. E, recentemente, você me disse que “o amor ainda é free”. Para mim, esta frase é a perfeita descrição de você. Quer coisa mais bonita do que essa? Obrigada por fazer parte da minha vida. Obrigada por estar sempre disposta, sempre sorrindo. Obrigada por me lembrar (com palavras e atitudes) que o amor ainda é free. Amo você.
 
(imagem: Katie Daisy)

28.3.13

A menina do vigésimo andar




 
Eu corria do fundo do parque de brinquedos até o fundo da garagem de cima. Brincava de queimada no salão, junto com outras (quase que) vinte crianças. Girava até ficar tonta no gira-gira grande. Eu não entendia porque o porteiro lia sempre o mesmo livro (e ele me explicou que aquele era um livro especial - a Bíblia). Brincava de esconde-esconde e batia cara no pilar. Pulava amarelinha nas divisórias do piso de ardósia que ficava entre os jardins da entrada. Fazia aula de piano com a moça do andar catorze. Brincava de escritório nas janelas do salão de festas. Fazia uma boa farra na piscina. Descia os vinte andares pela escada. O menino que morava no primeiro andar era chato. Pulava corda e elástico com as meninas. O pátio de entrada era o campo de corrida da barra-manteiga: metade das crianças ficava para o lado da garagem, e a outra metade para o lado do parquinho; quem chegava para entrar no prédio passava pelo meio de dois tantos de crianças com as mãos estendidas, e talvez entre duas correndo. Fazia piquenique. Brincava de pula-mula (mas dessa eu não gostava). Quando fiz sete anos ganhei uma festa à fantasia no salão de festas. Rodopiava na barra de mão. Demorei, mas um dia consegui alcançar o botão do meu andar, no elevador. Jogava pebolim e pingue-pongue. Uma vez o gatinho da portuguesa, que morava no décimo nono andar, caiu da janela. Pegava carona para a escola com a moça do quarto andar. Ensaiava coreografias com as meninas e apresentávamos nas festas que inventávamos. Hoje, quando apareço, o porteiro já não me conhece, e pede minha identificação na entrada. As pessoas que encontro no elevador sequer sabem meu nome (e eu também não as conheço). Não tem mais parque de brinquedos. Não tem mais mesa de pingue-pongue. Tampouco crianças brincando. Hoje tem câmera nos elevadores e flores artificiais no hall de entrada. Mas o pilar, no qual eu batia cara, ainda está lá - sustentando um prédio estranho.
 (imagem: Abigail Halpin)