28.3.13

A menina do vigésimo andar




 
Eu corria do fundo do parque de brinquedos até o fundo da garagem de cima. Brincava de queimada no salão, junto com outras (quase que) vinte crianças. Girava até ficar tonta no gira-gira grande. Eu não entendia porque o porteiro lia sempre o mesmo livro (e ele me explicou que aquele era um livro especial - a Bíblia). Brincava de esconde-esconde e batia cara no pilar. Pulava amarelinha nas divisórias do piso de ardósia que ficava entre os jardins da entrada. Fazia aula de piano com a moça do andar catorze. Brincava de escritório nas janelas do salão de festas. Fazia uma boa farra na piscina. Descia os vinte andares pela escada. O menino que morava no primeiro andar era chato. Pulava corda e elástico com as meninas. O pátio de entrada era o campo de corrida da barra-manteiga: metade das crianças ficava para o lado da garagem, e a outra metade para o lado do parquinho; quem chegava para entrar no prédio passava pelo meio de dois tantos de crianças com as mãos estendidas, e talvez entre duas correndo. Fazia piquenique. Brincava de pula-mula (mas dessa eu não gostava). Quando fiz sete anos ganhei uma festa à fantasia no salão de festas. Rodopiava na barra de mão. Demorei, mas um dia consegui alcançar o botão do meu andar, no elevador. Jogava pebolim e pingue-pongue. Uma vez o gatinho da portuguesa, que morava no décimo nono andar, caiu da janela. Pegava carona para a escola com a moça do quarto andar. Ensaiava coreografias com as meninas e apresentávamos nas festas que inventávamos. Hoje, quando apareço, o porteiro já não me conhece, e pede minha identificação na entrada. As pessoas que encontro no elevador sequer sabem meu nome (e eu também não as conheço). Não tem mais parque de brinquedos. Não tem mais mesa de pingue-pongue. Tampouco crianças brincando. Hoje tem câmera nos elevadores e flores artificiais no hall de entrada. Mas o pilar, no qual eu batia cara, ainda está lá - sustentando um prédio estranho.
 (imagem: Abigail Halpin)

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